Há um silêncio que me acompanha desde menino. Um silêncio de bolsos vazios, de caminhos de terra, de tardes inteiras a inventar o mundo com um pau, uma pedra, um riacho. Um silêncio que não era pobreza, era espaço. Espaço para crescer, para imaginar, para ouvir o próprio coração antes de ouvir o mundo.
Hoje olho para as crianças com os mesmos onze anos que eu tinha e vejo outra realidade. Bolsos cheios. Demasiado cheios. Cheios de smartphones, de roupas e calçado que dariam para vestir e calçar um mês inteiro sem repetir, de objetos que se acumulam sem que lhes conheçam o valor.
E não é inveja do passado. É preocupação pelo futuro.
Porque aquilo que antes nos faltava, obrigava-nos a crescer por dentro. Mas aquilo que hoje sobra, corre o risco de os deixar vazios por dentro.
Vejo crianças que já não sabem esperar. Que já não suportam o tédio. Que comem com o telemovel na mão, que recebem visitas sem levantar os olhos do ecrã, que vivem num mundo onde tudo é imediato, mas quase nada é profundo.
E pergunto-me, com a inquietação e a responsabilidade de homem que viu o país mudar: Que adultos estamos a formar quando lhes damos tudo, menos limites? Que carácter nasce, quando o desejo é satisfeito antes de amadurecer?
Não culpo as crianças. Elas são o que lhes damos. Culpo esta pressa moderna de substituir presença por objetos, atenção por tecnologia, amor por distração.
Quando eu era pequeno, o silêncio ensinava-nos a ouvir. Hoje, o ruído ensina-os a fugir.
Fugir da conversa à mesa. Fugir do convívio familiar. Fugir do desconforto de estar consigo próprios. Fugir até da realidade, refugiando-se num ecrã que lhes promete tudo e não lhes dá nada.
E nós, adultos, deixamos. Porque estamos cansados. Porque é mais fácil. Porque também nós fomos engolidos por esta máquina que transforma tudo em consumo, até a infância.
Mas ainda vamos a tempo.
Ainda podemos ensinar que um telemóvel não substitui um abraço. Que tantas legguin´s, tshirt’s e ténis, não valem uma tarde a conversar. Que a mesa é um altar de família, não um carregador de baterias. E que o mundo não se mede em likes, mas em gestos.
O silêncio que me criou, esse, nunca mais volta.
Mas podemos criar outro: o silêncio de desligar o telefone, o silêncio de ouvir um filho, o silêncio de jantar em conjunto, o silêncio de ensinar que a vida não cabe num ecrã.
Se não o fizermos, um dia estas crianças tão cheias de coisas descobrirão que cresceram vazias de tudo o que realmente importa.
E aí, já será tarde demais.
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