sábado, 27 de junho de 2026

Quando percebi que não caminhava sozinho

Na nossa vida surgem momentos em que o mundo parece tão grande que quase nos engole. E, no entanto, mesmo nesses instantes, eu nunca me senti totalmente sozinho. Não porque Deus me tirasse do perigo, mas porque sempre O senti ao meu lado, silencioso, presente, sem trocar destinos nem escrever tragédias para uns e milagres para outros.
Um desses momentos foi no Maiombe.
Era um dia como tantos outros, com a selva a respirar aquele calor pesado que nos fazia sentir pequenos. A escala de serviço tinha-me nomeado para acompanhar uma coluna auto do Belize até à praia de Lândana como operador rádio, para garantir comunicações enquanto se trazia areia para as obras de conservação do aquartelamento.
Preparava-me para partir quando o camarada Borges, da Afurada - homem de mar, filho de pescadores - me pediu, quase suplicou, para ir no meu lugar. Queria ver o “seu” mar. Aquele mar que lhe corria no sangue e que a guerra lhe tinha roubado.
Fui falar com o oficial de transmissões e nosso comandante. Ele autorizou. E lá foi o Borges, feliz como um miúdo que volta à casa da infância.
Eu fiquei. E ele não voltou.
Perto do Dinge, a Berliet onde seguia despistou-se. O Borges foi ferido com gravidade, evacuado para Luanda e depois para Lisboa. Durante anos carreguei um peso que não era meu, a culpa de lhe ter cedido o lugar. Mas a verdade é simples: eu não tinha mar dentro de mim. Ele tinha. E eu apenas quis ser generoso.
A minha fé nunca me permitiu acreditar num Deus que tira um filho para salvar outro. Tenho dois filhos e daria a vida por ambos. Não consigo imaginar um Pai que fizesse diferente. Por isso, nunca vi o Borges como alguém que “foi no meu lugar”.
Vi-o como alguém que seguiu o seu caminho, duro e injusto, mas seu. Soube depois, já em casa, que recuperou e voltou à Afurada, à mulher, aos filhos. Nunca mais o vi. Mas nunca o esqueci.
Mas houve outras vezes.
As Minas da Panasqueira, por exemplo. O Zé Maria, meu mestre marteleiro, homem que ria do perigo e fazia troça dos meus medos. Eu era novo, ele era experiente. Ele brincava com a morte como quem brinca com uma ferramenta.
Três meses depois de eu ter ingressado na GNR, um liso cedeu. A mina fechou-se sobre ele. E o Zé Maria ficou lá.
Quando soube, senti o chão fugir. Não por estar vivo, mas por não ter estado ao lado dele naquele dia. O medo não desapareceu, mas a gratidão também não.
E é aqui que entra aquilo que eu chamo Deus.
Não o Deus que escolhe quem vive e quem morre. Não o Deus que troca destinos como quem troca cartas. Mas o Deus que nos acompanha. Que respira connosco. Que nos dá força para carregar o que não entendemos. Que nos ensina a aceitar sem nos resignarmos. Que nos permite chorar sem perdermos a fé. Que nos mostra que a vida é feita de caminhos que não controlamos, mas que podemos honrar.
Por isso digo, com a serenidade que só os anos dão: Eu nunca estive sozinho. Nem no Maiombe. Nem no Dinge. Nem na Panasqueira. Nem na vida.
A fé, as dúvidas e a gratidão que carrego, não são sinais de fraqueza. São sinais de que, mesmo quando o mundo me assustou, eu senti sempre uma presença ao meu lado discreta, silenciosa, firme, que sempre me ajudou a continuar.
A presença que me acompanha até hoje.
Texto e foto.
27. 06. 2026