Houve um tempo – o tempo da minha infância – em que as portas da nossa casa nunca eram fechadas à chave. Dia e noite ficavam apenas “ao trinco”, como quem diz ao mundo: “Aqui vive gente de bem.”
E toda a rua sabia isso. Sabiam que a porta estava aberta.
Sabiam que podiam entrar, mas ninguém entrava sem chamar primeiro:
– Ó da casa!
E então vinha a resposta da minha mãe, sempre igual, sempre doce, sempre dela:
– Entre, quem é…
Primeiro o convite. Depois a pergunta.
Primeiro a confiança. Depois o assunto.
A minha mãe era assim. Pura como água de nascente. Boa como poucas. Respeitada por todos: mulher, mãe, esposa, filha, irmã, avó, vizinha. Uma daquelas almas que santificam uma rua inteira só por existirem nela.
A nossa casa era pequena no tamanho, mas era grande no seu valor, por causa dela.
Era porto seguro. Era abrigo. Era lugar onde nunca faltava apoio, nem colo, nem palavra certa.
Hoje, quando penso nas portas ao trinco, não penso na madeira de castanho de que eram feitas.
Penso nela. Na sua voz. Na sua bondade. Na confiança natural com que recebia o mundo.
E percebo que a saudade que sinto não é só da infância. É da pureza daquela gente. É da decência daqueles tempos. É da luz que ela espalhava sem esforço.
As portas já não existem. Mas a forma de acolher quem batesse à porta da minha mãe, vive em mim para sempre:
– Entre, quem é…