Há uma solidão que não fere. Uma solidão que não nasce da falta, mas da abundância – da abundância de termos vivido o suficiente para sabermos que a companhia mais fiel é a que mora dentro de nós.
É essa solidão que chega em tardes como esta, quando a casa fica mais quieta porque a Maria Manuela foi cantar para o outro lado da fronteira, e eu fico com o eco dos meus próprios passos, o cheiro dos restolhos a secarem nos campos, a luz a pousar devagar nas paredes.
Não é abandono. É repouso.
A solidão boa não exige nada. Não cobra, não aperta, não chama. Limita-se a estar, como o meu velho canito Bolinhas se deitava aos meus pés, sem pedir atenção, apenas presença.
É nessa solidão que o pensamento se endireita, que a memória se acende, que o coração fala mais baixo, mas mais claro. É nela que percebemos que não precisamos de multidões, nem de ruído, nem de distrações para sermos felizes.
Basta-nos este intervalo, esta pausa, esta espécie de trégua que a vida nos oferece quando ninguém está a olhar.
A solidão boa é a que nos devolve ao essencial: ao quintal, à terra, ao silêncio da Tapada da Rabela, ao rumor distante de Espanha, ao tempo que passa sem pressa. É a solidão que não pesa porque não vem de falta, vem de plenitude.
E talvez seja isso que a torna tão rara: não é a solidão de quem está só, é a solidão de quem está consigo próprio.
Quem aprende a habitá-la nunca mais teme o silêncio. Porque descobre que, no fundo, o silêncio é apenas a casa onde a nossa alma respira.
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