domingo, 28 de junho de 2026

Um fim de tarde em que a Beirã voltou a ser menina

Ontem vivi um daqueles finais de dia que não se repetem, mesmo que a rotina tente imitá-los. Foram momentos em que a minha Beirã ficou suspensa num fio de luz antiga, como se o tempo desse um passo atrás para nos lembrar que ainda sabemos ser comunidade.
E foi assim inesperado, sereno, cheio de gente e de memórias.
Ao contrário da maior parte das eucaristias vespertinas semanais, desta vez a igreja estava quase cheia. Recebemos um pároco francês que veio ocasionalmente substituir o padre Marcelino. Pessoa simples, afável, ainda a aprender a música da nossa língua, mas logo encantado com a beleza da igreja e com o nosso acolhimento.
Vi nos seus olhos aquele brilho de quem descobre um lugar que o recebe como se fosse um filho regressado.
Fui o seu anfitrião, com serenidade, respeito e aquele cuidado que se tem quando se representa a comunidade onde se nasceu. Sem discursos, sem cerimónias. E porque o rev.º Marcelino me informou o seu nome, apenas pronunciei: “Seja muito bem vindo, senhor padre Ponciano e que esta seja a primeira de muitas vezes que nos visita.”
Às vezes, acolher é só isto.
A missa decorreu com a naturalidade das coisas que não precisam de ser perfeitas para serem belas. E quando terminou, ninguém teve pressa de ir embora. Ficámos no adro da igreja, palco antigo onde tantas vidas se cruzaram com as nossas, onde tantas conversas se acenderam ao longo das décadas. A luz do fim de tarde pousava nas paredes como quem se despede devagar, e nós ficámos… até quase às nove da noite.
A minha companheira de vida era a mais moça no homogéneo grupo. Falámos das nossas peripécias, da sã ingenuidade, da felicidade simples que nos acompanhou na juventude. E uma das amigas presentes agora muito perto dos 80, recordou como, com as amigas, juntavam as moedas de todas para uma Laranjina C que repartiam, e ainda sobrava qualquer coisa.
E também aquela dos sapatos que estavam a consertar na oficina do sapateiro, mas foram usados – às escondidas do mestre – para um traje de Carnaval? E não foi que os “mascarados” se cruzaram com a dona dos sapatos, que, ao vê los naqueles pés, comentou: “Olha! Se não soubesse que os tinha a consertar, dizia que eram os meus…”
Rimos à gargalhada com a lembrança desta e de outras peripécias que, de tão insignificantes, afinal foram enormes, porque quase oitenta anos depois continuam vivas na memória de quem as protagonizou. Naquele tempo, a felicidade cabia numa minúscula laranjada partilhada, nuns sapatos indevidamente usados sem qualquer maldade. E bastava.
Essa querida amiga é exatamente a mesma que, num outro final de missa, se aproximou de mim para elogiar as escritas que lê muitas vezes — disse — porque a transportam à sua, à nossa juventude, devolvendo lhe o cheiro das tardes antigas, ao sabor da Laranjina, ao riso das amigas, ao tempo em que tudo era tão pouco mas suficiente.
Escrevi, nessa altura, um texto sobre esse diálogo que anda por aqui publicado, porque, ouvir aquilo, foi para mim mais do que um elogio: foi uma responsabilidade acrescida.
Percebi que o que escrevo não são apenas textos. São memórias. São pontes entre o passado e o presente. São casa. E que na comunidade há quem se reconheça nas minhas palavras, porque são feitas da mesma matéria que nos fez a todos: verdade, simplicidade e saudade da boa.
No adro da igreja, a noite, entretanto, já se debruçava sobre nós, quando a minha irmã Joaquina surgiu na sua carrinha, para cumprir o seu gesto diário de generosidade: levar o jantar a quem dele necessita e de quem ela cuidaa como filha dedicada. Já depois da missa tinha ido a casa preparar o jantar e voltava agora, com passos tranquilos, para entregar ao “seu” velhinho o que, para ele, é muito mais do que comida: é companhia, é cuidado, é vida.
Quando chegou ainda nos encontrou ali reunidos, como se o adro fosse sala de estar e o tempo tivesse decidido não avançar. E as “moças” do grupo, com aquela graça antiga que só a idade sabe aperfeiçoar, disseram lhe: “Vai lá Joaquina, dá o jantar ao tio João e depois vem aqui também trazer o nosso…”
Rimo-nos todos. Rimo-nos com aquela alegria que não precisa de explicação, porque nasce da cumplicidade de décadas. E naquele instante percebi que a Beirã não é apenas o lugar onde vivemos, é também o lugar onde nos cuidamos.
Texto e foto