Naquele final de manhã encontrava-me numa das salas de espera do Hospital de Portalegre, sentado entre cadeiras frias e passos apressados, a acompanhar a minha companheira. Há poucas semanas partira um joelho; naquele dia, retiraria finalmente o gesso.
Mas eu não conseguia sentir alívio. Uma sombra pesada instalara-se em mim: o receio de que a rótula esmigalhada fosse uma sentença de invalidez para uma mulher ainda tão jovem, esposa e mãe, com a vida inteira pela frente e fadada a manter um lar onde três homens insistem em desarrumar o que ela arruma.
Enquanto esperava, deixei-me afundar nos meus próprios pensamentos. Questionava, inquieto, os desígnios do Altíssimo, esses caminhos que tantas vezes nos parecem tortuosos, injustos, indecifráveis.
Foi então que a enorme porta envidraçada se abriu de rompante para dar passagem a uma maca. A corrente de ar que entrou varreu a sala e fez levantarem voo vários panfletos pousados numa prateleira, papéis anónimos que até então ninguém parecera notar.
Um deles veio pousar, com uma precisão quase insolente, junto aos meus pés. Apanhei-o sem pensar, apenas por reflexo. Mas o desenho a carvão do rosto de Jesus Cristo, tão deslocado naquele ambiente de urgências e rotinas hospitalares, obrigou-me a olhar melhor.
E acabei por ler o “recado” que trazia escrito.
À medida que avançava pelas palavras - simples, diretas, quase íntimas - senti uma serenidade inesperada a infiltrar-se em mim. Uma emoção quente subiu-me aos olhos, e por instantes fiquei ali, imóvel, com o papel na mão, como se o mundo tivesse abrandado.
Era como se aquele texto tivesse sido escrito para mim, naquele instante preciso, naquele lugar improvável. E posso afirmar que não sentia um conforto interior tão profundo desde o dia em que a minha companheira caíra pelas escadas e fizera em três a rótula do joelho.
Guardo, até hoje, aquela folha e desenho que o vento, por acaso ou por algo mais, fez chegar até mim.
Com o tempo, ponderando tudo a frio, reconheço com humildade que nada houve que nos devesse ter feito duvidar. Pelo contrário, houve muito, imensamente, para agradecer.
A Manuela teve a sorte, ou aquilo que cada um quiser chamar-lhe, de ser atendida de imediato por um dos mais qualificados ortopedistas do país, que por coincidência estava de serviço nas Urgências do hospital naquele dia e turno.
Com perícia e competência, uniu os três fragmentos da rótula com grampos e fios metálicos, reconstruindo-a de tal forma que não ficou qualquer sequela, para além da cicatriz que o tempo não apaga.
Dirão alguns que tudo não passou de coincidências. Talvez sim. Ou talvez não. A luz dos factos nem sempre coincide com a luz da fé. E cada um, como é justo, ficará com aquilo em que acredita.
Tenham um bom feriado de Corpo de Deus, Família & Amizades
