segunda-feira, 22 de junho de 2026

Feridas que o tempo não curou

Dedico este texto a todos os que aprenderam a viver com dores antigas como quem carrega pedras nos bolsos. Aos que sorriem por fora, enquanto por dentro, ainda procuram o ponto exato onde essa ferida começou. E, sobretudo, a quem finalmente encontrou coragem para se sentar consigo mesmo e dizer: “Chega. Agora é a minha vez de sarar.”
Então, cá vai…
Muitas dores não se fazem anunciar. Não chegam com estrondo, não batem à porta, não dizem “estou aqui”. Limitam se a instalar-se, silenciosas, como quem conhece a casa de cor. E nós, sem percebermos bem como, habituamo-nos a viver com elas.
Acordamos, trabalhamos, rimos, conversamos, mas há sempre um canto dentro de nós onde algo permanece por resolver. Como uma janela mal fechada por onde entra um ar frio que não devia estar ali.
O mais curioso é que, muitas vezes, essa dor não tem nada a ver com o que estamos a viver agora. O presente é inocente. O que dói é do passado, ou melhor, aquilo que o passado deixou por fechar.
Feridas que nunca chegaram a cicatrizar, histórias que ficaram a meio, palavras que não foram ditas, despedidas que não aconteceram, culpas que não eram nossas, mas que carregamos como se fossem.
Essas feridas antigas têm uma memória teimosa. Guardam cheiros, sons, gestos, olhares. E basta um pequeno detalhe – uma frase parecida, um silêncio semelhante, um gesto que recorda outro, para que volte a latejar.
Não porque o presente seja cruel, mas porque o passado ainda não encontrou o seu lugar.
E é aqui que muitos se enganam, quando acham que o tempo cura tudo. O tempo não cura nada sozinho. O tempo apenas passa. A cura vem quando temos coragem de parar, olhar para dentro e perguntar: “O que é que ainda me está a doer?”
A pergunta é simples, mas a resposta raramente é.
Há dores que vêm de longe. Da infância, de amores que falharam, de perdas que não soubemos chorar, de expectativas que nos ensinaram a carregar como se fossem obrigações.
E enquanto não dermos nome a essas dores, elas continuarão a vestir-se de presente, mesmo quando já não lhes assiste esse direito. Mas há uma boa notícia: o passado não é uma sentença. É apenas um lugar onde estivemos, não um lugar onde temos de viver para sempre.
Quando decidimos enfrentar o que ficou por resolver, algo muda. Não de repente, não como num estalar de dedos, mas muda. Começamos a perceber que a dor não era um castigo, era um pedido.
Um pedido para sermos mais gentis conosco, mais honestos, mais completos.
E aos poucos a ferida fecha. Não porque a esquecemos, mas porque finalmente compreendemos. E quando compreendemos, deixamos de carregar o peso.
O passado deixa de ser um fardo e transforma-se numa história, uma história que nos moldou, mas que já não nos prende.
Então o presente torna-se mais leve. Mais nosso. Mais verdadeiro. E descobrimos que a vida, afinal, ainda tem muito para nos dar e razões que nos devolvem ao que é simples e bom.
Porque a dor que carregávamos não era de agora. Era de antes. E quando deixamos o antes descansar, o agora floresce.
Tenham uma excelente semana, Família & Amizades.
Texto e foto