Há rotinas que um país nunca deveria impor aos seus cidadãos. Acordar às quatro da manhã, ainda com a noite inteira pousada sobre os ombros e percorrer 238 quilómetros até Lisboa para chegar a tempo de uma consulta marcada para as nove, não é uma escolha: é uma prova silenciosa da desigualdade.
Quem vive no interior conhece bem esta coreografia cansativa de preparar tudo na véspera, sair de casa muito antes do sol, enfrentar a estrada longa, chegar à capital já com metade do dia gasto e metade da energia consumida. E tudo isso para cumprir um direito básico: cuidar da saúde, acompanhar os seus, garantir que ninguém fica para trás.
É nesta distância – física, emocional e política – que se revela a verdadeira falha do país. Não é apenas a estrada que separa o interior de Lisboa; é a sensação de que a vida de uns, vale mais tempo, mais conforto, mais atenção, do que a vida de outros. E é a partir desta consciência, tantas vezes engolida em silêncio, que nasce a indignação justa que sustenta o texto que se segue.
Foi precisamente numa dessas madrugadas, igual a tantas outras, mas nunca fáceis, que o despertador o encontrou já acordado. Acordou antes de o ouvir. Não porque estivesse ansioso, mas porque o corpo, habituado a décadas de madrugadas, já não precisava de ser chamado. Eram quatro da manhã.
A casa estava mergulhada num silêncio espesso, daqueles que só existem quando o mundo ainda dorme. Levantou-se devagar, sentindo cada articulação como se fosse uma dobradiça antiga que precisava de ser persuadida a mexer-se. No espelho as rugas não o surpreenderam. Eram velhas conhecidas.
Cada uma contava uma história: o trabalho duro, as noites mal dormidas, as preocupações que nunca se dizem em voz alta, as perdas que o tempo impõe, as vitórias discretas que ninguém vê. Não havia vergonha delas. Havia dignidade.
Vestiu-se com calma, como quem se prepara para uma jornada que não escolheu, mas que aceita. A estrada esperava-o, longa, repetida, necessária. Duzentos e trinta e oito quilómetros para lá, outros tantos para cá. Uma rotina que já não impressionava ninguém, mas que exigia mais do corpo do que este tinha já para dar.
Saiu de casa quando o céu ainda era apenas uma sombra. O ar fresco da madrugada bateu-lhe no rosto, acordando-o por completo. Entrou no carro, ligou o motor, e a estrada abriu-se à sua frente como um corredor silencioso. Conduziu em silêncio, deixando que os pensamentos se arrumassem sozinhos. Não havia pressa. Havia apenas o dever.
Chegou ao destino ainda cedo. O edifício onde ia ser atendido tinha aquele cheiro característico dos sítios onde se trata do corpo: desinfetante, papel, metal, e uma certa ansiedade que paira sempre no ar. De guichet em guichet, de sala em sala, foi cumprindo o ritual. Entregava documentos, respondia a perguntas, esperava.
A espera era talvez a parte mais difícil, não pelo tempo, mas pela consciência de que cada minuto ali era mais um lembrete de que o corpo já não era o que fora. Ainda assim, não havia revolta. Havia apenas a serenidade de quem sabe que viver é também isto: cuidar das peças que se vão desgastando, aceitar que o tempo cobra, mas também oferece.
O almoço foi simples, quase apressado. Uma refeição sem história, tomada num daqueles sítios onde ninguém se demora. Depois, voltou para a estrada. A tarde já ia avançada e o percurso parecia mais longo no regresso. O corpo pesava, os olhos ardiam, mas havia uma força antiga que o empurrava para casa – uma força feita de hábito, de resiliência, de uma espécie de teimosia que só quem viveu muito, conhece.
Os quilómetros foram passando devagar. O sol começou a descer, tingindo o céu de cores que ele já vira milhares de vezes, mas que nunca deixavam de o comover. A vida, pensou, é feita destes pequenos instantes que ninguém regista, mas que ficam gravados na memória como fotografias silenciosas.
Quando finalmente chegou, dezoito horas depois de ter saído, sentiu o corpo desabar num cansaço profundo. Mas sentiu também outra coisa: uma leveza interior, uma espécie de paz que só existe quando se cumpre o que tem de ser feito. Não era heroísmo. Não era sacrifício. Era apenas a vida – a sua vida – vivida com decência.
E então, apesar do cansaço, sorriu. Um sorriso pequeno, quase imperceptível, mas verdadeiro.
Um sorriso que dizia:
“Ainda cá estou. Ainda caminho. Ainda sou eu.”
