Mesmo quando tudo em nós pede o seu adiamento, há decisões que temos de tomar. Decidir é sempre um ato de liberdade, mas também um ato de responsabilidade: cada escolha revela quem somos e quem deixamos de ser. E é nesse instante frágil e decisivo que começamos a descobrir a nossa verdadeira natureza.
Há mudanças que precisam de acontecer, quer estejamos prontos ou não. Nada permanece imóvel na vida; resistir ao movimento é resistir à própria essência do existir. As mudanças chegam sem pedir licença, viram-nos a alma do avesso e obrigam-nos a largar o que já não serve.
Doem, sim, mas libertam.
Há medos que temos de enfrentar. O medo é o guardião das fronteiras do nosso crescimento. Não desaparece só porque o ignoramos; precisa de ser olhado de frente, com aquela coragem humilde de quem sabe que treme, mas avança na mesma.
A coragem nunca foi ausência de medo, é conseguirmos caminhar apesar dele.
Há solidões que precisamos suportar. A solidão não é ausência de mundo, mas presença de nós mesmos. É nela que descobrimos o que não pode ser roubado. São noites longas, silenciosas, onde aprendemos que a nossa própria companhia pode ser um lugar seguro, se a tratarmos com respeito.
E há lágrimas que temos de chorar. Cada lágrima é uma verdade que se solta, uma libertação necessária. Não nos enfraquecem, purificam-nos. Lavam o que já não faz sentido e abrem espaço para o que ainda pode vir a florescer.
Dentro de nós, há recomeços à espera. Recomeçar não é voltar ao início; é avançar com a consciência do que já fomos. É permitir que algo novo floresça devagar, como quem aprende a respirar outra vez. Recomeços devolvem-nos a dignidade, a confiança, a capacidade de nos olharmos ao espelho sem desviar o olhar.
E mesmo quando pensarmos que já não seremos capazes de suportar mais nada, o tempo – esse velho mestre – acabará por nos revelar que somos muito mais fortes, muito mais resistentes, muito mais corajosos do que imaginávamos.
A vida molda-nos, mas não nos quebra.
A auto-estima nasce exatamente aqui: no instante em que percebemos que sobrevivemos ao que julgávamos insuportável. E que, apesar de tudo, continuamos de pé.
José Coelho com Maria Coelho
Em Bellinzona - Suíça, Abril'26
