segunda-feira, 15 de junho de 2026

Natal no Maiombe

Havia dias em que o Maiombe parecia não ter fim. A selva erguia-se à nossa volta como uma muralha viva, feita de sombras, cheiros húmidos e um rumor constante que nunca se calava. Era um mundo que engolia o horizonte e nos lembrava, a cada passo, que ali não mandávamos em nada.
Eu tinha vinte anos. Vinte apenas e já com a farda marcada pelo suor, a pele endurecida pelo medo e o coração cheio de uma saudade que não sabia explicar. A Beirã parecia tão longe que às vezes duvidava se ainda existia. Mas bastava fechar os olhos para ouvir a voz da minha mãe, o riso dos amigos no Largo da Fonte, o sino da igreja a marcar as horas como quem diz: “Ainda estás ligado a nós.”
Foi num desses dias que a RTP apareceu no aquartelamento. Uma câmara grande, pesada, que parecia deslocada naquele cenário de terra vermelha e árvores gigantes. Disseram-nos que iríamos gravar mensagens de Natal para as famílias. Eu ri-me. Natal ali? No meio daquele inferno verde e calor sufocante? Mas quando me chamaram, senti um aperto no peito.
Segurei o microfone com mãos que queriam parecer firmes. Atrás de mim, a floresta respirava. À frente, a lente fria esperava por mim. E eu, quase uma criança, tentei parecer homem.
Disse “Feliz Natal” com a voz mais segura que consegui. Mas dentro de mim, o que eu queria mesmo era voltar a casa, sentir o cheiro dos madeiros da Missa do Galo no adro da igreja, ouvir o meu pai dizer “o nosso Zéi está bem”, ver a minha mãe enxugar os olhos com o avental.
Naquele instante, percebi que a saudade não é ausência, é presença. É o que fica quando tudo o resto nos é tirado.
O Maiombe ensinou-me isso.
Ensinou-me o valor de um abraço que não se pode dar, de uma aldeia que continua a existir dentro de nós mesmo quando o mundo à volta se torna selva. Ensinou-me que a juventude é frágil, mas teimosa. E que, mesmo no meio da guerra, há sempre um fio de luz que insiste em sobreviver.
Hoje, quando olho para esta fotografia – o rapaz de vinte anos, o microfone na mão, o olhar ainda limpo – vejo alguém que não sabia o que o esperava, mas que nunca deixou de acreditar que voltaria.
E voltei.
Voltei para contar a história.
Voltei para honrar os que ficaram pelo caminho.
Voltei para dizer, com a serenidade que só o tempo dá, que os Natais no Maiombe foram os mais duros… e os mais verdadeiros da minha vida.