segunda-feira, 15 de junho de 2026

O silêncio que me criou

O silêncio fala comigo. Já falava, antes de eu saber escrever. Fui aprendendo cedo que ele não é ausência, é presença. Presença do vento a passar entre os carvalhos, presença das cotovias a riscar o céu, presença daquele murmúrio das folhas que parecia conhecer o meu nome melhor do que muita gente.
Aos onze anos, com os bolsos vazios, enquanto os outros rapazes juntavam moedas para um petisco, eu juntava passos pelos campos, levando comigo um livrito de cow-boys emprestado e a fiel companhia do meu amigo silêncio.
Era ali, no meio da natureza, que eu me sentia completo. O vento falava comigo como um irmão mais velho. As folhas dos sobreiros afagavam-me o rosto como a mão da minha mãe.
E eu, menino de poucas posses mas de mundo imenso, aprendi que a solidão podia ser casa, podia ser colo, podia ser bênção.
O silêncio ensinou-me a escutar antes de falar, a sentir antes de julgar e a ser antes de parecer. Foi ele que me deu esta serenidade que hoje carrego, esta forma de olhar a vida com a calma de quem já conversou longamente com a terra.
E talvez por isso escrevo: para voltar a esse menino que caminhava ao encontro do vento que me dizia verdades simples, para ouvir outra vez o murmúrio das folhas que nunca me mentiram.
Escrevo, porque o silêncio ainda me chama.
E eu, como sempre, respondo.
Mas há algo mais, algo que só se entende com o peso dos anos e a leveza da memória. O silêncio foi o meu primeiro mestre.
Foi ele que me ensinou que a pobreza não é falta, é escola. Que a solidão não é castigo, é caminho. Que a natureza não é cenário, é família.
Pelo silêncio dos campos aprendi a distinguir o som do vento bravo do vento manso, a reconhecer o humor das nuvens, a perceber quando a terra estava contente e quando estava cansada.
Aprendi a caminhar sem pressa, a olhar sem medo, a sentir sem vergonha.
E talvez seja por isso que, ainda hoje, quando o mundo me pesa, volto a ser aquele menino pastor que encontrava no silêncio tudo o que lhe faltava no bolso.
Volto a ser aquele Zéi de onze anos que sabia, sem saber que sabia, que a vida é muito mais simples do que parece.
O silêncio criou-me.
E continua a criar-me, cada vez que me sento para escrever.