sábado, 20 de junho de 2026

Beirã: Onde o tempo fala comigo

Há lugares que não se escolhem – acontecem-nos. A Beirã é um desses lugares. Não nasceu comigo, mas moldou-me. E quanto mais os anos passam, mais percebo que esta terra não é apenas o sítio onde cresci: é o sítio onde continuo a aprender a ser.
A Beirã tem um silêncio próprio. Não é o silêncio vazio das cidades adormecidas, nem o silêncio tenso das estradas desertas. É um silêncio cheio: cheio de pedra, de vento, de memória, de passos que já não se ouvem, mas que ficaram gravados no chão.
É um silêncio que não pesa, acompanha.
Quando caminho pelos campos ou quando olho para a Tapada da Rabela desde o meu quintal, sinto que esta terra fala comigo numa língua que não se aprende nos livros.
É uma língua feita de cheiros a rosmaninho, a giesta, a terra quente. Feita de sons como o arrulhar das rolas, o farfalhar das folhas dos sobreiros ao lado da minha casa, o rumor distante de um trator que passa como quem cumpre um ritual antigo. Feita de luz, daquela luz dourada que só o Alto Alentejo sabe dar ao fim da tarde.
Mas a Beirã não é só beleza. É história. É cicatriz. É resistência.
Eu vi esta terra cheia de vida: ferroviários, guardas fiscais, despachantes, famílias inteiras que enchiam as ruas de movimento. Vi comboios chegar e partir, vi a estação ser coração, vi a alfândega ser fronteira viva. E depois vi tudo isso desaparecer devagar, como quem apaga uma vela com cuidado para não levantar fumo.
A Beirã perdeu gente, perdeu serviços, perdeu futuro. Mas não perdeu alma. Nunca perderá alma.
E é essa alma que me prende aqui. É essa alma que me faz cuidar do quintal como quem cuida de um pedaço de história. É essa alma que me faz falar com as rolas que me reconhecem, com a lagartixa que aparece sempre no mesmo muro, com as pedras que guardam mais memória do que muitos livros.
Há dias em que me sento à sombra da minha casa e penso: como é possível que um lugar tão pequeno contenha tanto de mim? E a resposta vem sempre da mesma forma: porque aqui, nesta terra amiga, eu nunca precisei de fingir. Aqui sou completo. Aqui sou conhecido. Aqui pertenço.
A Beirã ensinou-me a respeitar o tempo. O tempo das estações, o tempo das pessoas, o tempo das coisas que não voltam. Ensinou-me que há memórias que se guardam como se guardam sementes – não para as prender, mas para as deixar florescer quando chegar o momento.
E talvez seja por isso que, mesmo quando o mundo lá fora me cansa, quando me julgam sem saber, quando opinam sem conhecer, eu volto sempre a este chão. Porque aqui, entre pedras antigas e horizontes largos, encontro aquilo que nenhuma cidade me pode dar: a certeza de que pertenço a um lugar que me conhece melhor do que muitos humanos.
A Beirã não é apenas a minha terra. É o meu espelho. É o meu abrigo. É o meu princípio e o meu regresso. E enquanto eu puder escrever, caminhar, respirar e olhar este horizonte, sei que nunca estarei sozinho. Porque esta terra – antiga e maravilhosa – guarda-me como eu a guardo a ela.
Texto e foto