Aos 07 de Março de 2015 nasceu este blogue que tal como o seu antecessor TocadosCoelhos pretende apenas ser um ponto de encontro e de entretenimento pautando-se sempre pelas regras da isenção, da boa educação e do civismo em geral. Sejam muito bem-vindos.
quinta-feira, 7 de maio de 2026
Só quem semeia, colhe – na horta e na vida
quarta-feira, 6 de maio de 2026
A farda que me escolheu
Valores que o tempo nunca deveria apagar
Vivemos numa época de transformações profundas, em que muitos dos valores que sustentaram famílias e comunidades durante gerações parecem perder terreno perante novos hábitos, prioridades e modos de viver. Para quem cresceu ancorado em princípios sólidos, esta mudança traz um sentimento de estranheza — quase de desalinhamento — sobretudo quando a experiência de vida é recebida com correções ou críticas vindas das gerações mais novas.
Durante
décadas, ensinamentos como humildade, simplicidade, sabedoria, honestidade,
generosidade, educação, disciplina, respeito e fraternidade foram transmitidos
como um legado natural. Hoje, porém, muitos destes valores são vistos como
ultrapassados, como se o mundo moderno tivesse decretado que a integridade é
coisa de outros tempos. O que antes era motivo de orgulho tornou-se, por vezes,
alvo de reparo, como se a vivência e o bom-senso tivessem perdido validade.
Este
fenómeno pesa sobretudo sobre quem sempre procurou viver e transmitir esses
princípios, e que agora sente a dor de ser corrigido com o argumento de que
“hoje já nada é assim”. Mas a convicção permanece: não é errado viver segundo
aquilo que nos ensinaram; errado seria abdicar da honestidade e do caráter só
porque o mundo anda apressado.
Há
cinquenta anos, a vida era dura e a abundância escassa. Hoje, há quase tudo em
excesso — menos aquilo que realmente importa: amor ao próximo, amizade
verdadeira, honestidade, generosidade, educação, disciplina, respeito,
delicadeza, sinceridade, humildade e fraternidade. Estes valores, cada vez mais
raros, continuam a ser os únicos capazes de construir uma sociedade justa,
solidária e verdadeiramente humana.
A
falta deles é visível sobretudo nas esferas de poder, onde o exemplo deveria
ser regra. Em vez disso, multiplicam-se casos de corrupção, compadrio e
ganância, que acabam por contaminar o olhar da sociedade. Mesmo no seio das
famílias, das amizades ou do trabalho, apesar de ainda existirem pessoas de
bons princípios, cresce o individualismo, a inveja e a competição desmedida. O
sucesso alheio, tantas vezes fruto de esforço e sacrifício, desperta
ressentimento em vez de admiração.
Para
quem sempre viveu com honestidade, superando dificuldades sem atalhos, é
difícil aceitar que a integridade seja desvalorizada em favor do imediatismo ou
da sorte. Mas é precisamente essa capacidade de transformar adversidades em
força que deve ser motivo de orgulho. Dizer a verdade, olhar nos olhos, recusar
a hipocrisia e manter coerência entre palavras e ações são ensinamentos que não
envelhecem.
Manter
vivos esses valores, pode parecer, aos olhos de alguns, estar “fora de moda”.
Mas num tempo marcado por instabilidade, violência, corrupção e degradação das
instituições, importa reafirmar que a honestidade, a idoneidade e o respeito
continuam a ser pilares essenciais. São eles que podem restaurar a confiança, a
harmonia e a dignidade social.
Não
devemos abdicar dos princípios que recebemos das gerações anteriores. O tempo
muda costumes e mentalidades, mas não muda a essência do caráter. Que saibamos
resistir à superficialidade e ao imediatismo, mantendo acesa a chama da
bondade, da verdade e do respeito mútuo — por nós e por quem virá depois.
José Coelho
terça-feira, 5 de maio de 2026
O Amor constrói-se todos os dias porque amar não é um instante – é uma escolha contínua.
segunda-feira, 4 de maio de 2026
Para ti, companheira dos meus últimos 55 anos (Parte 2)
Corpus Christi
O dia mais santo do ano – segundo a ti Florinda Lourenço, Senhora Minha Mãe – era o Dia do Corpo de Deus. Tão santo que, dizia ela, muito séria e convicta, “até as folhas das oliveiras se cruzavam ao meio‑dia em ponto, a saudarem a Cruz de Cristo”. Nunca conheci mulher mais devota. E nunca me cansei de ouvir as suas crenças, quase sempre acompanhadas de algum “caso” que tinha acontecido a fulano ou beltrano por não respeitar tais preceitos.
Não podia ir à missa todos os domingos. Mãe de quatro filhos e esposa de um camponês, passava a semana inteira nos campos. Ao domingo o seu “dia de descanso” era limpar a casa, lavar a roupa de todos, coser um rasgão aqui, outro ali. Um descanso mais duro do que mondar o trigo, que mal lhe deixava tempo para si.
Compensou depois. Na última década da sua vida, já viúva e com os filhos criados, não faltou a um só domingo, a um só dia santo, a um só mês de Maria ou procissão. Ia a todas. Nunca frequentou qualquer catequese mas sabia rezar melhor do que muitas beatas. Sabia rezas para o pão crescer, para o pão cozer, para se levantar, para se deitar, para atravessar caminhos ermos. Sabia dezenas delas. Era uma sábia, a minha Florinda.
Nunca me esqueço dela, mas é nestes rituais que a sinto mais perto. Claro que as folhas das oliveiras não se cruzam. Mas ainda assim vou sempre ver. Não por acreditar no milagre, mas porque era crença da minha Mãe e isso aproxima‑me da sua memória.
Ai de quem ousasse dizer‑lhe que aquilo não era assim: “A gente, mesmo que nã acredite, nã deve dizer mal…”
Este ano, como sempre, irei espreitar as oliveiras do quintal. Ou melhor: irei visitar as memórias que ela cá me deixou. Cruz nenhuma verei. Apenas ramos viçosos, carregados de flores – o alentejano candeio. Assim chamavam os nossos antepassados camponeses aos cachos de flores que pendem das oliveiras nesta época. Era pelo aspeto desse “candeio” que previam se o ano seria farto em azeite.
Adoro os usos, os costumes e os falares da minha região. Do meu povo, na sua simplicidade, autenticidade e pureza. Gente humilde no trato, mas riquíssima em idoneidade. Assim é a minha terra. Assim eram os meus pais, os meus avós, todos os meus antepassados. Pessoas que não sabiam ler nem escrever, mas eram sábias e dignas. Aprenderam à custa das suas sacrificadas vidas e ensinaram‑nos mais do que muitas escolas.
Obrigado, Mãe.
Não quero – de modo algum – duvidar das tuas crenças, mas ainda não será este ano que verei as folhas das oliveiras em cruz, como tu acreditavas.
E voltarei a pensar: Qual será o meio‑dia verdadeiro? O de verão ou o de inverno? O solar ou o dos relógios?
Pois… Se calhar é isso.
Ainda nunca acertámos com o meio‑dia do Corpo de Deus.
Quem sabe, um dia, acertemos...
(Com saudades tuas, minha Florinda.)
José Coelho




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