Escrevo estas linhas depois de ter percorrido, com todos vós, muitos textos já publicados. E digo “percorrido” porque escrever nunca foi, para mim, um ato solitário. Cada palavra que aqui deixei, foi escrita com a consciência de que alguém, algures, a iria acolher. E esse pensamento – essa presença silenciosa de quem me lê acompanhou-me sempre como uma espécie de luz discreta ao fundo da página.
Ao longo do caminho fui percebendo que escrever é, acima de tudo, um gesto de cuidado. Cuidar da memória, para que não se perca. Cuidar das pequenas coisas, para que não fiquem esquecidas. Cuidar das pessoas, para que saibam que há alguém que olha o mundo com a mesma serenidade que elas procuram. Cuidar de mim próprio, porque ao escrever também me reencontro.
Cada texto nasceu dessa vontade de cuidar. Cuidar da Beirã, das suas manhãs, das suas vozes antigas. Cuidar dos gestos simples que dão sentido aos dias. Cuidar das histórias que herdámos e das que ainda estamos a construir. Cuidar daquilo que, sendo pequeno, é afinal o que sustenta a vida.
É uma porta entreaberta. É uma casa onde todos cabemos. Uma casa com janelas abertas onde entra a luz da Beirã, o cantar das aves, o cheiro da terra, o silêncio das manhãs. E vocês entram sem fazerem barulho, sentam-se, escutam, e deixam-me a sensação de que nunca escrevo e nunca escrevi, sozinho.
É um lugar onde me sento convosco, leitores que me acompanharam e a quem digo: Obrigado.
Obrigado por me lerem. Obrigado por reconhecerem nas minhas palavras algo que também vos pertence. Obrigado por me deixarem entrar nas vossas rotinas, nos vossos silêncios, nas vossas tardes.
Se a minha escrita vos fez companhia, então cumpriu o seu propósito. Se vos ofereceu serenidade, então valeu a pena cada linha. Se vos fez lembrar que a vida é feita de gestos, então o cuidado chegou onde tinha de chegar.
A minha escrita irá continuar, porque enquanto houver alguém que leia com o coração aberto, haverá sempre uma palavra que nasce para cuidar.
Foto Maria Coelho
