Há passeios que não se fazem para chegar a algum lado. Fazem-se para que o corpo se lembre que existe, para que a cabeça se arrume, para que o coração encontre o seu compasso. As minhas idas a Marvão são dessas.
Não importa se é terça ou sábado, se o Citroën C3 vai limpo ou com pó do caminho. Importa a estrada, essa fita de alcatrão que sobe devagar, como quem respeita a montanha.
Saio da Beirã sempre com a mesma sensação: a de que estou a deixar um lugar que me conhece demasiado bem. A aldeia fica para trás, pequena, silenciosa, com as casas brancas a piscarem como quem diz “vai, mas volta”. E eu vou. A estrada começa a desenhar curvas largas, e cada curva é uma ideia que se abre.
Há um momento, sempre o mesmo, em que Marvão aparece ao longe, uma mancha de pedra pousada no alto rochedo, como se tivesse sido ali colocada por mãos antigas. É impossível não pensar na fragilidade humana quando se olha para aquela fortaleza.
Séculos de história, batalhas, vigias, tempestades… e ali está ela, firme, enquanto nós passamos, passageiros de um tempo que não dura.
A subida obriga o carro a trabalhar. O motor muda de tom, como quem respira mais fundo. E eu também. A estrada inclina, as árvores aproximam-se e o pensamento ganha densidade. É nestes minutos que muitas decisões se fazem: o que dizer, o que calar, o que aceitar, o que deixar ir.
A estrada para Marvão é uma espécie de conselho silencioso que não responde, mas escuta.
Chegar ao alto é sempre para mim uma revelação. O mundo abre-se. A lonjura estende-se como um lençol antigo, cheio de dobras e histórias. A vista não é só vista: é memória. Ali, naquele miradouro natural, o tempo abranda. O vento traz recados da serra. E eu fico, por instantes, a pensar que talvez a vida fosse mais simples se todos os dias incluíssem uma ida a Marvão.
Posso ir lá três vezes no mesmo dia, catorze vezes numa semana. O encantamento é sempre igual ao da primeira vez. Devia até – em meu modesto juízo – ser proibido o trânsito automóvel dentro da Vila, exceto, claro, aos veículos de ajuda e socorro ou transporte de idosos e doentes.
Perturbar aquele impressionante silêncio com o ronco dos motores, agredir a pureza daquelas ruas antigas e imaculadas paredes com o barulhento vaivém de viaturas de todas as cilindragens, é quase um sacrilégio. Mas manda quem pode, obedece quem é disciplinado.
Depois, claro, há o regresso. A descida é outra coisa: é o pensamento que se organiza, que se torna claro, que encontra lugar. Se a subida é pergunta, a descida é resposta. E quando volto à Beirã, já não sou exatamente o mesmo que saiu. A estrada fez o seu trabalho.
Há viagens que são apenas deslocações. E há viagens que são uma forma de pensar. A de ir a Marvão, é das segundas.
Foto Pedro Coelho.
