quarta-feira, 30 de setembro de 2026

A Heravirgém e o milagre das estações

Há uma parede em Santo António das Areias que me acompanha como um velho segredo. No verão passo por ela quase sem dar por isso: está coberta de verde, discreta, fresca, como uma sombra que se encosta à rocha para fugir ao calor.
Mas quando chega o outono, a Heravirgém transforma-se diante de mim, e eu, que a conheço há tantos anos, fico sempre surpreendido como se fosse a primeira vez.
As folhas mudam devagar, primeiro um rubor tímido, depois um vermelho que se espalha como fogo manso. É uma combustão silenciosa, dessas que a natureza faz sem pedir testemunhas.
E eu paro.
Paro sempre. Porque há coisas que não se devem atravessar com pressa e esta trepadeira é uma delas.
A pedra e o saibro tornam-se altar e a Heravirgém, com o seu manto ardente, parece celebrar um rito antigo: o da despedida. O outono, ali, não é decadência, é revelação.
É o instante em que a natureza nos mostra que a beleza também vive na mudança, que o mundo é digno de louvor mesmo quando se prepara para adormecer.
Quando fotografei esta parede senti que estava a guardar mais do que uma imagem. Guardei um gesto da terra, uma respiração do tempo, uma lição que me acompanha: ver é diferente de olhar.
Olhar é passar; ver é permanecer.
E eu permaneço.
Permaneço sempre que passo, na Avenida Dr. Manuel Magro Machado onde a Heravirgém me recorda que a vida tem esta capacidade de se reinventar em silêncio, sem alarde, sem anúncio, apenas com cor.
Talvez seja por isso que gosto tanto do outono: porque nele encontro esta dignidade tranquila, esta nostalgia que não dói, esta promessa de que tudo o que muda pode ser belo.
E a Heravirgém, fiel ao seu destino, continuará a pintar o muro enquanto houver pedra para abraçar e luz para se despedir.
Texto e foto