Há caminhos que não se percorrem apenas com os pés ou com o carro. Percorrem-se com aquilo que se traz dentro, com o que se lembra, com o que se perdeu, com o que ainda se guarda como quem protege uma chama pequena. As estradas e caminhos da Beirã, com as suas fontes e curvas, são exatamente isso: um mapa da minha vida.
As fontes são lugares onde a memória bebe. E cada fonte tem uma história. A da Celorica, fria como uma verdade antiga. A da Murta, onde a água parece falar baixinho. Aquelas fontes que encontrava nas minhas deslocações de menino, quando a aldeia era maior do que o mundo e cada poça era aventura.
As fontes são como capítulos: umas claras, outras sombrias, outras quase esquecidas. Mas todas guardam o gesto de parar. E parar, na minha vida, foi sempre pensar. As curvas na serra, no desenho do tempo, não são apenas geografia. São ritmo. São pausa. São aquilo que obriga o corpo a ajustar-se e a mente a acompanhar.
Há curvas que me lembram o meu pai, caminhando com passo firme. Há curvas que me devolvem a imagem da minha mãe, com o seu avental e voz doce. Há curvas que me trazem a Maria Manuela, sentada ao meu lado, a comentar o mundo com aquela serenidade que só ela tem. E há curvas que me devolvem a mim próprio, ao homem que conduz sozinho, mas nunca vai só.
Cada curva é uma memória que se acende e eu transformo cada curva em narrativa.
Há um instante, sempre o mesmo, em que a estrada deixa de ser estrada e passa a ser pensamento. É quando o carro avança devagar, quando o vento muda de tom, quando a luz da serra se inclina. É aí que as memórias aparecem, não como fantasmas, mas como companhia.
A fonte que vejo há décadas. A curva onde me apercebi que estava a crescer. O lugar onde parei para respirar antes de dizer à avó Amélia que o avô Zé Lourenço tinha acabado de falecer no hospital de Portalegre. O sítio onde disse a mim mesmo: “Vai correr bem.”
As estradas e caminhos da Beirã não me levam apenas de um ponto ao outro. Levam-me de um tempo ao outro. Quando chego a casa depois de passar pelas fontes e curvas que conheço de cor, trago sempre qualquer coisa comigo: uma lembrança, uma frase, uma certeza, uma paz.
É como se a estrada me devolvesse ao essencial, ao que sou quando ninguém me está a ver.
E talvez seja isso que faz destas viagens pequenas uma espécie de ritual: não se trata de chegar, mas de recordar. Não se trata de andar, mas de reencontrar. As fontes são memória. As curvas são vida. E eu sou o personagem que as atravessa com a serenidade de quem sabe que cada quilómetro é também uma história.
