Há lugares que não se visitam: regressa‑se a eles. A Fonte da Celorica é um desses sítios onde a terra parece ter memória e onde a água, ao brotar, nos reconhece antes de nós a reconhecermos a ela. Quem ali chega não encontra apenas um caudal transparente a correr pela bica de ferro, encontra uma origem.
Uma
verdade que não precisa de explicação.
Recordo
a primeira vez que lá fui, ainda menino, levado pela mão firme do meu pai. A
manhã estava fresca e o caminho parecia maior do que realmente era. Havia
silêncio, mas não era o silêncio das ausências, era o silêncio das coisas que
sabem o que são. O chão respirava, os castanheiros guardavam a sombra e a água
brilhava como se tivesse sido acesa por dentro.
A
sua nascente no cimo das fragas não se impõe, não tem porte de monumento, não
tem a arrogância das obras humanas. É silenciosa, discreta, quase tímida. Mas
quem se aproxima sente logo que ali há qualquer coisa de definitivo. A água sai
da terra com uma franqueza que não se encontra nas pessoas: não mente, não
disfarça, não promete o que não pode cumprir.
É
fria como deve ser, pura como pode ser, constante como nós raramente somos.
Durante
anos, ir à Celorica era um ritual. O cântaro de barro, o som da água a bater no
fundo, o peso que aumentava devagar enquanto o cântaro se enchia. E depois o
regresso, sempre mais leve do que a ida, porque a água traz consigo uma espécie
de ordem. Quem carrega água carrega também um pedaço de mundo arrumado.
Ali
aprendi que a água é destino.
Não
apenas porque dá vida, mas porque nos ensina a olhar. A nascente pouco muda com
as estações: no verão parece mais apressada, no inverno mais silenciosa, na
primavera mais generosa. Mas nunca deixa de ser ela. Nunca falha. Nunca se
esquece de aparecer.
Hoje
quando volto à Celorica, já não levo cântaros. Levo memória. Levo o corpo que
envelheceu, mas que ainda reconhece o frio da água como se fosse o primeiro
toque. Levo também a certeza de que há lugares que nos moldam sem fazer
barulho. Esta fonte e nascente é um deles. É uma lição de humildade: tudo
começa num ponto pequeno, escondido, quase invisível.
E
talvez seja isso que a torna tão grande. A água da Celorica não é apenas água.
É origem. É caminho. É destino.
José Coelho
