Há carros que são apenas máquinas. E há carros que, sem nunca o pedirem, se tornam testemunhas da nossa história. O meu Citroën C3 pertence à segunda espécie, a dos companheiros silenciosos, fiéis, que sabem mais de nós do que qualquer diário.
Veio substituir o não menos humilde Opel Corsa agora já velhinho, mas ainda a pegar à primeira, a bater estrada desenganadamente e a passar na IPO todos os anos sem o menor problema, como quando era novinho em folha.
E, tal como o seu antecessor, o C3 não é um carro vaidoso. Não tem a arrogância dos motores que se exibem, nem a soberba dos modelos que querem ser vistos. É discreto, quase tímido, mas tem aquela dignidade dos objetos que cumprem o seu papel sem falhar.
E isso, na vida de um homem, vale ouro. É um companheiro que não exige palco.
Quando o abro de manhã, não me recebe com luzes teatrais nem com sons artificiais. Recebe-me com aquilo que sempre me recebeu: a normalidade. O volante que já conhece as minhas mãos, o banco moldado ao meu corpo, o cheiro que não é de fábrica, é de vida.
O C3 não me pede nada. Só me dá: caminho, tempo, silêncio, companhia e as viagens que ele guardou.
Se falasse, contava histórias que só eu sei: a subida a Marvão com o papel do IBAN no banco do lado, missão simples que afinal desbloqueou esperança; as idas a Portalegre e onde mais for preciso para consultas e exames, sempre com aquele misto de preocupação e rotina.
Os regressos tardios depois de ajudar onde é preciso, com o corpo cansado, mas o espírito leve. O C3 viu tudo. E nunca se queixou. É um carro que me conhece.
Há uma intimidade curiosa entre um homem e o carro que conduz há anos. O C3 sabe quando estou apressado, porque sente no modo como mudo de velocidade. Sabe quando estou pensativo, pela suavidade com que desço a estrada. Sabe quando estou preocupado, porque nota o silêncio mais pesado dentro do habitáculo quando baixo ao mínimo o som do rádio.
E sabe quando estou em paz, quando a viagem se torna música.
Mas eu também o conheço: o som do motor quando está feliz, o toque do pedal quando pede descanso, o modo como enfrenta a serra como quem sobe uma montanha pela décima vez mas sem perder respeito. E tem a humildade de um companheiro verdadeiro.
O Citroën C3 não é um carro para impressionar. É um carro para acompanhar. E essa é a diferença entre o que se compra e o que se vive. Ele leva-me onde preciso, mas leva-me também onde penso. É veículo e é abrigo. É transporte e é pausa. É máquina e é memória.
No fundo, é como eu: não faz alarde, não pede atenção, não exige reconhecimento. Serve. Cumpre. Acompanha.
E talvez seja por isso que, quando fecho a porta ao chegar a casa, há sempre um instante breve, quase imperceptível em que lhe agradeço sem palavras.
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