terça-feira, 29 de setembro de 2026

O outro lado da vedação


Há uma linha verde que separa o meu quintal do mato que se estende por três quilómetros de raia e solidão até Espanha. Não pretende ser muro nem fronteira, apenas uma discreta vedação erguida sobre a secular parede que divide a minha propriedade da Tapada da Rabela.

De um lado o nosso cuidado: os pratos com sobras de comida, as cascas de fruta em pedacinhos, o pão já duro, e a ternura que a Maria Manuela põe em tudo o que toca.

Do outro lado e mal anoitece, o rumor dos javalis, das raposas, dos ginetes e saca-rabos que pontualmente se apresentam, certos de que por aqui encontrarão sempre algum alimento.

Ouço-os chegar como quem escuta velhos vizinhos amigos. Os javalis farejam o ar com a solenidade, as raposas avançam com a tímida cautela de quem não quer assustar, os ginetes movem-se como sombras antigas da serra e os saca-rabos surgem e desaparecem como os segredos da noite.

E eu aqui, não como dono do quintal, mas como guardião de uma convivência que só existe onde o coração a sabe escutar.

A Maria Manuela – exatamente como já a minha mãe fazia – cumpre o seu ritual com a paciência de quem conhece o valor das pequenas coisas: parte, separa, distribui. E ao vê-la, lembro-me de como a Beirã foi sempre este lugar onde as fronteiras nunca serviram para separar, mas para lembrar que tudo o que vive tem direito ao seu espaço, ao seu silêncio, ao seu pedaço de mundo.

Talvez seja por isso que a vedação me inspira.

Cresci a ver a fronteira que se atravessava com coragem e silêncio, porque, mesmo ao cantinho da parede deste quintal, era o saltador da vereda para os homens que iam e vinham na noite com passos leves sobre a terra, no contrabando que era sobrevivência, risco, mas também cumplicidade.

E agora, tantos anos depois, são animais selvagens, perante a escassez de alimento que atravessam a sua própria fronteira, não para fugirem, mas porque confiam. Na Beirã até os bichos sabem que ainda há mãos amigas. Sabem que do lado de cá ninguém levanta muros, levanta gestos.

E nesses gestos a aldeia continua a respirar dia após dia, como se dissesse ao mundo: “Do outro lado das vedações também há vida, também há fome, também há necessidade de ajuda.”

Dou por mim a pensar que a minha vedação não separa nada, apenas recorda que o mundo é maior do que o nosso quintal e que a solidariedade, quando é verdadeira, passa sempre para o outro lado.

José Coelho
Texto e foto