quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Revisão de amizades

Há um tempo na vida que não é marcado no calendário, que não tem data nem cerimónia, em que percebemos que carregamos demasiadas portas abertas para casas onde já ninguém mora. É um tempo que chega devagar, quase sempre num gesto simples: abrir uma lista, olhar para os nomes, sentir o peso do silêncio.
Foi assim comigo.
Durante anos fui juntando pessoas como quem junta pedras apanhadas ao acaso: umas belas, outras sem forma, outras que ficaram apenas porque não tive coragem de as largar. A certa altura, dei por mim diante de 1442 nomes.
E, no entanto, o que mais se ouvia era o vazio. Não era mágoa. Não era desilusão. Era apenas verdade.
Há quem esteja por estar, como móveis antigos que permanecem numa sala por hábito, não por utilidade. E há quem esteja de verdade, mesmo que fale pouco, mesmo que apareça só de vez em quando. A presença não se mede em frequência, mede-se em alma.
Foi então que decidi fazer essa limpeza. Não uma limpeza brusca, dessas que cortam com raiva. Foi uma limpeza justa, ponderada, quase artesanal.
Passei nome a nome, memória a memória, gesto a gesto. Fui percebendo quem me lia, quem me respondia, quem me devolvia um aceno, quem guardava comigo o fio da conversa. E fui deixando ir os outros não por desprezo, mas porque a vida pede espaço, e a amizade exige verdade.
Assim reduzi de 1442 para 295. E nesse gesto, que muitos aplaudiram e poucos não entenderam, não perdi nada. Ganhei espaço. Ganhei silêncio bom. Ganhei clareza.
Não é o número que importa, é o vínculo.
Não é a multidão, é o eco.
Não é a presença física, é a presença verdadeira.
Há uma serenidade particular em fechar portas com gratidão. Aos que ficaram, agradeço a presença, essa presença que não precisa de ser diária para ser real. Aos que partiram, agradeço na mesma: fizeram parte do caminho, mesmo que por pouco tempo, e isso basta para que lhes deseje bem.
Hoje olho para a lista e vejo um jardim. Não um arquivo. Não um inventário. Um jardim.
Com plantas que florescem, outras que secam, ramos que crescem, ramos que se partem. E compreendo finalmente que a amizade é isso: um organismo vivo, que respira, que muda, que se renova.
Não é culpa de ninguém quando uma planta deixa de florir, é apenas o curso natural das coisas.
Fico com menos nomes, mas fico com mais sombra verdadeira. E isso, para mim, é suficiente. Mais vale um só amigo que o é, do que cem figurantes sem qualquer afinidade que nos una.
Texto e foto