domingo, 6 de setembro de 2026

A raia Marvaneja

Encontro-me com a “minha” raia Marvaneja todos os dias, como quem se reencontra com um antepassado. Esta terra não é apenas o lugar onde vivo, é também o lugar que me vive. Quando a cada manhã abro a porta do quintal e deixo que o horizonte me toque, sinto que estou a entrar numa história que começou muito antes de mim, muito antes de todos nós.
Aqui, onde o céu se derrama sobre ciclópicos canchais e denso montado, caminho sobre seis milénios de existência. Seis milénios de passos, de rituais, de mãos que ergueram antas e menires como quem escreve no granito a vontade de permanecer. E eu, que cheguei tarde a esta eternidade, aprendi a escutar o que a pedra ainda diz.
Vejo o reino de Castela lá ao longe a recortar o azul como uma sentinela antiga. E penso sempre que aquele recorte é mais do que paisagem, é memória. É o eco dos povoados alto medievais, das villas romanas onde o pão era cozido com o mesmo sol que hoje me aquece o rosto. É o rumor das fronteiras que já foram linhas de guerra e hoje são apenas linhas de vento.
Quando respiro este ar puro, sinto que ele vem de longe. Vem das raízes das azinheiras, vem das sombras dos sobreiros, vem das asas das aves que atravessam o céu como flechas de luz. Aqui, a vida selvagem não é espetáculo, é vizinhança. E eu, que sou apenas mais um habitante deste mundo antigo, aprendi a caminhar devagar para não perturbar o que me antecede.
A raia Marvaneja é o meu chão e o meu destino. É o lugar onde o tempo se dobra, onde o silêncio tem densidade, onde cada pedra sabe mais do que eu. E quando olho esta paisagem – esta que vejo do meu quintal e me acolhe – sinto que pertenço a algo maior do que a minha própria vida.
Porque aqui, nesta terra de seis milénios, eu não sou apenas quem sou. Sou também quem veio antes. Sou também quem virá depois. Sou parte dela e ela é parte de mim.
Tenham um excelente Domingo...