quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Tempo de enceleirar

Há gestos que são mais antigos do que as palavras. “Enceleirar” é um deles – este ritual de pendurar cebolas e alhos, como quem guardava o sol dentro da casa. Cada cabeça de alho, cada cebola dourada, trazia consigo o trabalho de meses e a memória de gerações que aprenderam a viver com o que a terra dava.

Noutros tempos, a vida não era fácil. O sustento vinha das mãos e da paciência. O que não se comprava na mercearia nascia nas hortas, e o que sobrava era guardado para o inverno, seco, limpo, protegido.

As “sobrecamas” tornavam-se celeiros suspensos, e o cheiro da lenha misturava-se ao das colheitas penduradas, num perfume de abundância modesta, mas digna.

Hoje, ao olhar estas tranças de cebolas e alhos, sinto que nelas repousa mais do que alimento: repousa a sabedoria dos que sabiam esperar, dos que semeavam em dobro para não faltar, dos que faziam da casa um abrigo contra o esquecimento.

É o outono que começa, entre a fartura das sementeiras e o murmúrio das recordações.
Porque “enceleirar” não é apenas conservar, é também lembrar.

Beirã, setembro de 2026

José Coelho