Há memórias que regressam sem aviso, como pássaros que sabem sempre encontrar o caminho de volta. Chegam num instante qualquer, abrem a porta da lembrança e trazem consigo histórias que nunca deviam ter acontecido, ou que, tendo acontecido, nunca deviam ter sido varridas para debaixo do tapete da rotina.
Uma dessas histórias voltou hoje à minha memória, com a nitidez das coisas que doem.
Foi o furto de armamento numa unidade militar onde eu servia. Caso grave, investigação rigorosa, inquérito exaustivo. Tudo parecia apontar para uma conclusão justa, ponderada, séria. Mas a justiça, quando se perde no labirinto dos factos, tem um talento antigo: encontra sempre a saída mais fácil. E a saída mais fácil é quase sempre a mesma – o elo mais fraco.
Ninguém sabia quando o armamento tinha desaparecido. Ninguém conseguia fixar o dia, a semana, o mês. Mas todos sabiam quem iria pagar. Não o comandante. Não os graduados. Não quem tinha responsabilidade real. A culpa caiu sobre o guarda que, por azar do calendário, fora quarteleiro-de-dia “algures por aquela data”. Uma conclusão tão absurda que quase parecia piada, não fosse a vida real ter pouca graça quando decide ser cruel.
O guarda cumpriu o castigo. E no dia seguinte pediu para sair da profissão que tinha escolhido em jovem. Voltou à agricultura, onde o trabalho é duro, sim, mas onde pelo menos a injustiça não anda fardada. E esta história, que podia ser exceção, é apenas sintoma daqueles que se repetem, silenciosos, porque ninguém quer olhar para eles de frente.
Há uma facilidade quase preguiçosa em julgar quem trabalha na linha da frente da segurança pública. O cidadão comum celebra o Natal, a Páscoa, os feriados, os fins-de-semana. Os agentes da autoridade celebram quando podem, e muitas vezes não podem. Enquanto uns consoam, outros patrulham estradas. Enquanto uns dormem, outros atendem chamadas de emergência. Enquanto uns descansam, outros enfrentam o pior da condição humana.
E depois, quando um deles falha – mesmo que seja uma falha mínima, humana, inevitável – cai sobre ele uma intolerância que não se aplica a mais ninguém. É curioso como todos erram, mas só alguns pagam como se o erro fosse crime.
Há quem acredite que a farda transforma o homem em máquina. Que a autoridade apaga a fragilidade. Que o dever elimina o medo, o cansaço, a dúvida. Mas não elimina. Nunca eliminou. A farda não é uma couraça; é apenas tecido. E por baixo do tecido há sempre um ser humano falível, imperfeito, vulnerável.
Eu sei isso porque também estive lá. Errei, sim. Mas errei a trabalhar. Errei a proteger. Errei a servir. Nunca errei por maldade, arrogância ou abuso. Errei porque estava vivo e porque a perfeição não é atributo humano. E, no entanto, quantas vezes a sociedade exige perfeição absoluta de quem trabalha em condições que ela própria não suportaria por um único dia.
A justiça deveria ser o lugar onde todos têm o mesmo peso. Mas demasiadas vezes é o lugar onde o peso maior cai sobre quem tem menos força para o suportar. O guarda que abandonou a carreira numa tão valiosa como corajosa atitude de indignação, não foi vítima de um erro. Foi vítima de um sistema que prefere sacrificar um inocente a admitir que falhou.
E isso é a verdadeira escabrosidade. Não o erro, mas a escolha consciente de quem o paga.
Podia terminar esta crónica com a lista dos meus serviços, das minhas distinções, das minhas provas dadas. Mas não o faço, porque a verdadeira autoridade não se exibe. Respira apenas na tranquilidade com que olho para trás e sei que cumpri. Respira na solidariedade que mantenho com quem continua lá, 24 horas por dia, 365 dias por ano, a segurar o país nos braços. Respira na certeza de que o dever não precisa de medalhas para ser honrado.
Fica a memória do guarda injustiçado que ainda hoje olho com profundo e solidário respeito. Fica a denúncia de um sistema que ainda não aprendeu a olhar para todos por igual. Fica a certeza de que errar é humano e que punir o erro sem olhar ao contexto é desumano. Fica esta ideia, que devolvo com firmeza: a justiça só é justa quando reconhece que a humanidade não é defeito – é condição.
