Há
dias em que a memória acorda antes de nós. Levanta-se devagar, espreguiça-se
como um gato ao sol, e começa a puxar-nos pela mão para lugares onde já fomos
felizes – ou onde acreditámos que a felicidade era uma coisa simples, quase
doméstica, como o cheiro do pão quente ou o canto das rolas ao amanhecer.
Nestes
dias, dou por mim a revisitar caminhos antigos. Vejo-me mais novo, mais leve,
talvez mais distraído da vida, mas sempre atento às pequenas grandezas que o
tempo teima em esconder. Recordo o largo da aldeia, as conversas demoradas à
porta das casas, o riso fácil dos vizinhos que já partiram, e aquele silêncio
bom das noites de verão, quando o mundo parecia caber inteiro dentro de um
banco de madeira.
E
lembro-me de mim – não o homem que sou agora, mas o rapaz que acreditava que
tudo era para sempre. O rapaz humilde, de infância curta, que aos onze anos já
sabia o peso do trabalho e a leveza dos sonhos. O rapaz que corria sem destino,
que guardava segredos no bolso, que achava que os avós eram eternos e que o
tempo era apenas uma palavra dita sem pensar.
Hoje,
quando fecho os olhos, ainda consigo ouvir a voz da minha avó a chamar-me para
dentro: “Ó Zé, olha que arrefece!”, como se o frio fosse uma ameaça e o colo
dela um abrigo universal. E vejo o meu avô sentado no banco, a afiar a navalha
com a paciência dos homens que sabem que a vida não se apressa.
Às
vezes penso que foi ali que aprendi a ser quem sou: alguém que guarda, alguém
que escuta, alguém que não tem pressa de partir, mesmo quando a vida me levou
para longe, para quartéis, guerras e minas que me fizeram crescer depressa
demais.
A
nostalgia não dói. A nostalgia aquece. É uma manta velha que ainda cheira a
casa.
E
quando me deixo envolver por ela, sinto que tudo o que vivi continua aqui, não
como sombra, mas como raiz. A infância pobre mas cheia de amor, o trabalho
precoce, os anos de farda, a dureza das minas, a procura honesta de um lugar ao
sol: tudo isso permanece como quem acende uma luz discreta dentro de nós.
Talvez
seja isso envelhecer com serenidade: perceber que o passado não é um sítio onde
se volta, mas um sítio que se traz conosco.
E
eu trago-o. Trago tudo. Como quem carrega um tesouro que não se vê, mas que
ilumina.
José Coelho