segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O menino que corria descalço

Antes de ser homem, antes de comandar, antes de ser pai, antes de carregar responsabilidades, fui apenas um menino da Beirã. E esse menino de pés descalços, olhos curiosos e alma limpa ainda vive dentro de mim, como uma brasa que nunca se apagou.
A minha infância não foi feita de brinquedos caros nem de tardes vazias. Foi feita de rua. De pedra. De sol. De vento. De vozes que chamavam de porta em porta. De vizinhos que eram família. De liberdade que hoje já não existe.
Na hoje denominada Rua Fernando Namora onde tudo acontecia, eu corria como quem corre para dentro da vida. Corria atrás dos outros rapazes, atrás das aventuras, atrás do tempo que parecia infinito. Corria sem medo, sem pressa, sem destino, porque o destino era ali mesmo, naquela rua estreita de terra batida, que me ensinou a ser do mundo sem sair da aldeia.
Havia uma alegria particular nesses dias: a alegria de saber que a terra era minha, que o monte era meu, que o largo era meu, que a infância era um território sem fronteiras. E havia também uma disciplina silenciosa, herdada dos meus pais: o respeito pelos mais velhos, a responsabilidade nos pequenos gestos, a consciência de que a vida não era brincadeira, mas que a brincadeira fazia parte da vida.
Recordo-me das tardes de verão, quando o calor pousava nas paredes como um animal manso. Recordo-me das corridas até à fonte, das conversas à sombra das árvores, das gargalhadas que ecoavam entre as casas brancas. Recordo-me de como o tempo era lento, generoso, inteiro.
E recordo-me, sobretudo, de como a Beirã me moldou o carácter.
Foi aqui que aprendi a distinguir o bem do mal. Foi aqui que aprendi a ajudar antes de ser pedido. Foi aqui que aprendi a ouvir antes de falar. Foi aqui que aprendi a respeitar antes de comandar. Foi aqui que aprendi a ser homem, muito antes de a vida me exigir que o fosse.
A infância na Beirã não me deu apenas memórias. Deu-me estrutura. Deu-me norte. Deu-me a sensatez que hoje me guia. Deu-me a humanidade que tantos reconhecem. Deu-me a disponibilidade que herdei dos meus pais. Deu-me a força que não precisa de ser exibida.
E quando hoje olho para trás, não vejo apenas o menino que corria na Rua Fernando Namora. Vejo o início de tudo. Vejo o primeiro capítulo da minha vida. Vejo o lugar onde aprendi a ser quem sou.
A infância não volta – mas permanece. Permanece no gesto, na palavra, na memória, na saudade. Permanece em mim, que a guardo como quem guarda uma fotografia antiga no bolso interior do casaco.
E permanece na Beirã que continua a ser a minha terra, porque foi a minha primeira casa, o meu primeiro mundo, o meu primeiro amor.
Foto ainda com pés descalços na várzea das Amendoeiras aos sete anos de idade quando éramos só três irmãos. A Adelina, eu e a pequenita Maria da Luz.