Mana,
Muitos caminhos fazem-se com os pés mas também há caminhos que se fazem com o coração. O teu, há já alguns anos, fez-se dos dois: primeiro deixaste a Beirã e depois deixaste Portugal, deixaste a tua casa, deixaste o cheiro das manhãs e foste reconstruir a vida em terras de Sua Majestade.
Mas nunca deixaste de ser daqui.
Nunca deixaste de ser nossa.
Tu e o António Martins partiram com coragem, não aquela coragem ruidosa, mas a coragem silenciosa de quem quer estar perto dos filhos, de quem quer abrir portas, de quem acredita que o mundo é maior do que a aldeia onde nasceu.
A Inglaterra acolheu-vos como quem abre uma porta sem perguntar a idade, apenas perguntando: “Sabem trabalhar?”.
Vocês sabiam. Sabiam tanto que mesmo reformados, continuam a ser chamados, continuam a ser precisos, continuam a ser úteis.
Isso diz muito de vocês.
Diz tudo.
E, apesar da distância, nunca deixaram de voltar. De dois em dois anos, como quem cumpre um ritual de amor. E, quando é preciso tratar de papéis, bancos, documentos, vêm uma vez por ano, porque a vida não se faz só de saudades, faz-se também de responsabilidades, de raízes, de coisas que só se resolvem cá.
Essas vindas são como pequenos regressos ao lar: chegam, pousam as malas, respiram o ar da Beirã, reencontram os cheiros, os rostos, os lugares que nunca se apagam.
E depois há esse teu mundo de agora, tão cheio, tão bonito: o Luís e a Cristina que convosco são a força da família; o Leonardo, que entrou na vossa vida como genro mas que é já parte da vossa história; e os três netos – o Gustavo, o Xavier e o Guilherme – que vos enchem a casa de risos, perguntas, desenhos, abraços, tudo aquilo que faz a vida valer a pena.
Imagino-te a olhar para eles com aquele olhar que sempre tiveste: firme, doce, atento, cheio de ternura. Tu foste sempre assim Luz, a irmã do meio que segurava pontas, que equilibrava lados, que trazia calma quando era preciso e força quando era necessário.
A irmã que sempre fez falta.
E eu sei, mana. Mesmo longe, mesmo ocupada, mesmo com a vida cheia, tu gostas de mim. Tu pensas em mim. Tu guardas-me no teu coração como eu te guardo no meu.
Por isso te escrevo estas linhas: para te dizer que também gosto muito de ti. Que te trago comigo. Que te celebro. Que te agradeço. Que a distância não apaga irmãos, só os torna mais nítidos, mais presentes, mais verdadeiros.
Chamas-te Maria da Luz. E és luz.
A minha Luz.
Cuida de ti também, enquanto cuidas de todos, como matriarca da família Coelho Martins.
Com grande carinho, o teu mano.
José Coelho
