domingo, 13 de setembro de 2026

Domingo sem gente

Hoje não foi um domingo qualquer. Foi um daqueles dias em que a paisagem parece confirmar o que há muito murmura dentro de mim: que o mundo está a ficar demasiado grande para tão pouca gente. Que as estradas se tornaram corredores vazios. Que as cidades pequenas perderam o passo. Que o silêncio, quando é demasiado, deixa de ser paz e passa a ser ausência.
No percurso da Beirã até Portalegre, os quilómetros sucederam-se como páginas de um livro sem personagens. Dois carros, talvez três, cruzaram-se comigo – sombras rápidas, quase irreais, como se também eles estivessem de passagem por um território que já não lhes pertence. A estrada, tão minha, tão conhecida, parecia hoje uma linha desenhada num mapa antigo, esquecida por quem planeia o futuro sem olhar para trás.
E quando cheguei à cidade, o vazio ganhou corpo. Portalegre, que já teve pulsação, estava ali como uma fotografia tirada depois da festa, quando já todos foram embora. Ruas sem passos, janelas sem movimento, cafés sem rumor. A vida, que costuma esconder-se nos detalhes, hoje não estava em lado nenhum.
Só no restaurante havia gente – um punhadinho, como se o domingo tivesse sido reservado a meia dúzia de resistentes. Mas mesmo ali, entre talheres e pratos, pairava aquela sensação de que o mundo encolheu demasiado, ou talvez tenha sido a gente que se foi embora depressa demais.
E foi nesse instante, nesse aperto fundo que não se explica mas se sente, que me saiu a frase que só sai quando a alma está cansada: “Vamos vender a casa, dar aos filhos a parte deles e sair deste fim de mundo, Maria.”
Não era decisão. Era melancolia a falar por mim. Era o peso de um território que se esvazia ano após ano, até restarem apenas memórias e meia dúzia de vozes. Era o eco da desertificação que me assombra – os tais 11 habitantes por quilómetro quadrado que não são estatística, são solidão medida a régua.
Hoje acordei assim melancólico. E a melancolia, quando se instala, transforma até a terra mais amada num lugar estrangeiro.
Mas amanhã… amanhã talvez a luz seja outra. Talvez o canto das rolas volte a encher o quintal, talvez o cheiro do café devolva o sentido às manhãs, talvez a Beirã volte a ser a minha casa com o quintal, com as plantas, com a igreja, com a Maria Manuela ao meu lado, com a vida que ainda resiste, mesmo que em silêncio.
Hoje o mundo pareceu grande demais para tão pouca gente. Amanhã, quem sabe, volte a caber dentro do meu coração.