Há histórias que não precisam de ser inventadas. Basta escutá-las. E quando nos chegam da boca de um amigo de infância, com aquele brilho nos olhos de quem revive o passado como se fosse agora, tornam-se ainda mais preciosas.
Esta é uma delas.
Naqueles tempos antigos da raia, quando a vida era dura e a mesa tinha muitos filhos à volta, havia homens que sabiam sobreviver com engenho, coragem e uma pontaria que não vinha dos livros. Um desses homens era o sogro do meu amigo – um homem bom, de muitos filhos, mãos calejadas e uma habilidade rara: caçava com pau.
Sim, com pau. Não era metáfora. Era necessidade.
Numa dessas idas a Espanha, a pé, como se fazia então, o meu amigo e o sogro levavam às costas umas coisitas. Nada de grande valor, mas o suficiente para trazerem de volta outras coisitas que alimentassem a família. Contrabando? Talvez. Mas na raia, contrabando era apenas outro nome para sobrevivência.
A certa altura, já no regresso, o sogro avistou um coelho pousado numa pedra. Olhou, mediu a distância, apanhou uma giesta, improvisou uma moca, e num gesto rápido, seco e certeiro, derrubou o bicho. “Já temos jantar”, disse, como quem anuncia uma bênção.
Voltaram a casa com as mochilas mais cheias do que tinham ido e ainda o coelho para a família. Tudo parecia ter corrido bem.
Dias depois, no matadouro onde o meu amigo trabalhava, aproximou-se dele um guarda fiscal. Homem bom, conhecido de todos, daqueles que sabiam distinguir a lei, da vida.
Com um sorriso discreto, perguntou-lhe:
– Então… e o coelhito, estava bom?
O meu amigo ficou sem fala.
– Qual coelho? – balbuciou, atrapalhado.
O guarda explicou. Eles tinham sido vigiados por uma patrulha da Guarda Fiscal. Tinham-nos visto à ida com as mochilas. Tinham-nos visto à volta. Tinham visto o coelho abatido à paulada. Tinham visto tudo.
Quatro infrações de uma vez: contrabando na ida, contrabando na volta, caça ilegal, e método proibido. Mas não fizeram nada. Esconderam-se. Deixaram-nos passar. Protegeram-nos. Porque sabiam da prole imensa que esperava em casa por comida. Porque conheciam o homem e a sua vida.
Porque entendiam que aquilo não era crime, era necessidade.
O meu amigo da infância contou-me isto com aquela emoção e respeito que só aparece quando a memória se mistura com gratidão. E eu fiquei a pensar que, na nossa raia, havia uma justiça que não cabia nos códigos: a justiça dos homens que conheciam a fome, a dignidade, e a coragem dos outros.
E é por isso que esta história cabe inteira nas Crónicas da Beirã.
Porque é verdadeira.
Porque é humana.
Porque é nossa.
Que a terra seja leve a esses dois bondosos Beiranenses: ao sogro do meu amigo da infância e também ao guarda fiscal, lá, onde já descansam em paz, não muito longe um do outro.
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