Portugal
é um país de contrastes que se sentem na pele. No litoral, tudo parece mover-se
depressa: cidades cheias, oportunidades que se multiplicam, cultura à mão de
semear, serviços públicos que funcionam com outra cadência. No interior, porém,
o tempo corre de forma diferente não por ser mais lento, mas porque é cada vez
mais vazio. A desertificação não é apenas estatística: é humana, social,
afetiva. É o silêncio que cresce onde antes havia vida.
O
abandono do interior não começou ontem. É o resultado de décadas de políticas
que nunca olharam verdadeiramente para estes territórios. Desde meados do
século XX, as populações rurais partiram – umas para o litoral, outras para o
estrangeiro – procurando aquilo que a terra já não conseguia oferecer-lhes. A
industrialização concentrou-se onde havia densidade populacional, deixando para
trás uma economia agrícola envelhecida, frágil e sem defesa.
As
políticas públicas, quase sempre desenhadas a partir das cidades, pouco fizeram
para contrariar esta erosão. Infraestruturas, saúde, educação, cultura, tudo
chegou tarde, pouco, ou simplesmente não chegou. A ferrovia foi sendo
desmantelada, os centros de saúde encerrados, as maternidades desapareceram, as
escolas primárias foram agregadas até ao ponto de deixarem de existir. Cada
serviço que fechava era mais um empurrão para quem ainda resistia.
A
desertificação do interior é, antes de tudo, a desertificação das pessoas. A
população envelhece, rareia, e em muitos concelhos os nascimentos são tão
poucos que já não justificam uma escola aberta. As praças e ruas das aldeias
ficam desertas durante a semana, ganhando vida apenas ao domingo, quando
regressam filhos, netos e amigos, numa romaria de saudade que dura apenas
algumas horas.
Este
vazio humano reflete-se na economia. O comércio tradicional fecha porque já não
há quem compre. Os pequenos agricultores não têm escoamento para os seus
produtos. A indústria transformadora quase desapareceu. E as empresas que
resistem lutam para atrair mão-de-obra qualificada que não quer viver onde tudo
parece longe.
A
paisagem também sofre: campos incultos, mato que avança, florestas
desordenadas, incêndios que encontram terreno fértil na ausência de quem cuide
da terra.
Para
quem como eu, insiste em ficar, o interior não é apenas um lugar, é uma herança
afetiva, uma forma de estar no mundo. Há um orgulho silencioso em manter viva a
casa dos pais, em preservar tradições, em caminhar pelos mesmos trilhos da
infância. Mas este apego não esconde as dificuldades.
A
saúde é um desafio diário: uma consulta implica dezenas de quilómetros,
transportes públicos escassos, tempos de espera que podem ser críticos. Na
educação, as crianças percorrem longos trajetos para chegar à escola, perdendo
tempo que deveria ser de família, de comunidade, de brincadeira. E o isolamento
social pesa sobretudo nos mais velhos, que vivem sozinhos, dependentes de
vizinhos ou de serviços sociais que não chegam a todos. A solidão é talvez a
face mais cruel deste abandono.
Ainda
assim, há esperança. Ela vive em quem fica, em quem cuida, em quem resiste. O
interior não é apenas o que falta, é também o que permanece.
José Coelho
