Há águas que não se bebem apenas, também se escutam. A nascente do Cabril era uma dessas águas. Durante décadas, foi ela que abasteceu o depósito da Beirã, fiel, constante, humilde, como todas as coisas que a natureza oferece sem pedir nada em troca.
A aldeia crescia devagar, e o Cabril chegava para tudo. Para as casas, para os quintais, para os verões longos em que a água parecia infinita.
Mas a vida tem o seu ritmo, e a aldeia também. Com o passar dos anos, a Beirã começou a crescer. Chegaram mais famílias, mais casas, mais necessidades. E o Cabril, que durante tanto tempo fora suficiente, começou a mostrar a sua fragilidade.
A água já não chegava para todos. Era preciso procurar mais longe, mais fundo na própria terra.
Foi então que se abriu o Poço da Aldeia. Uma nova nascente, mais generosa, mais abundante, que veio ajudar o Cabril a sustentar a vida da Beirã. Durante mais algum tempo, trabalharam lado a lado o Cabril e o Poço da Aldeia, como dois velhos companheiros que conhecem bem o peso da responsabilidade.
E a aldeia respirou de novo.
Mas o crescimento não parou. Nem na Beirã, nem nos povoados vizinhos, nem nos lugares dispersos da freguesia. A água, que sempre fora suficiente, começou outra vez a faltar.
Foi então que o Município de Marvão tomou uma decisão que mudou para sempre a história do abastecimento eficaz: rasgou valas, meteu condutas e trouxe água da Barragem da Apartadura, no sopé da Serra de São Mamede.
Uma obra grande, profunda, definitiva para todo o concelho de Marvão e não só. A água passou a chegar com segurança, com abundância, com futuro.
Hoje, o Cabril e o Poço da Aldeia continuam a correr. Mas correm livres, sem aproveitamento, descendo para o ribeiro como quem regressa ao seu destino natural. Já não sustentam casas, já não enchem depósitos, já não carregam o peso da aldeia.
São agora memória líquida de um tempo em que a água nascia perto e bastava.
Quando passo pelas nascentes, seja do Cabril ou do Poço da Aldeia, há sempre um instante em que o mundo parece abrandar. A água corre devagar, sem urgência, como quem sabe que já não tem de alimentar ninguém.
Mas nesse correr, há uma beleza que me encanta: a liberdade da água que já não serve, mas que continua a existir, e, mesmo sem utilidade prática, continua a ser parte da alma da Beirã.
Porque uma nascente não é apenas água. É memória. É testemunho. É continuidade. É a prova de que a natureza guarda tudo, mesmo quando já não lhe pedimos nada.
E eu encontro, naquele fio de água, uma verdade que me acompanha: a de que uma mãe d'água, mesmo quando deixa de ser necessária, nunca deixa de ser nossa.
Foto Maria Coelho