sábado, 12 de setembro de 2026

A minha comadre Adriana


Há pessoas que não precisam de fazer barulho para marcar uma vida. A minha comadre Adriana é uma dessas pessoas. Não ganhou o título por formalidade, ganhou-o por mérito afetivo. Naquele tempo, quando o meu Manel nasceu, havia padrinhos “do lado da mãe” e padrinhos “do lado do pai”. Mas a amizade era tão forte, tão antiga, tão limpa, que ela foi promovida a comadre por direito de coração, a par da madrinha verdadeira. Há vínculos que não se decretam: reconhecem-se.
A minha comadre Adriana é do Porto e vive no Porto. Professora primária reformada, traz consigo aquela serenidade que só quem ensinou crianças durante décadas, consegue guardar. É uma serenidade que não se compra, herda-se da vida, das lutas, das salas de aula, das histórias que se recolhem como quem recolhe sementes.
Quando penso nela a aparecer à porta, vejo-a nos finais da década de 70, naquele passo curto, firme, quase escolar, como quem aprendeu a caminhar entre carteiras e quadros de ardósia. A Beirã, nesses instantes, parecia ganhar mais memória, mais chão, mais raízes. A Adriana não falava alto, não gesticulava muito, não se impunha mas a presença dela emanava respeito. Era uma mulher que carregava serviço, cuidado, olhar atento sobre gerações inteiras.
E havia também o outro lado da história: um pacto da guerra. O seu ex-marido foi meu camarada no Ultramar. Lá, entre o pó e o medo, fizemos um pacto simples e sagrado: se voltássemos vivos, o primeiro a ser pai convidaria o outro para padrinho. E eu cumpri-o sem hesitar.
Mal o meu filho nasceu, telefonei-lhe: “Já cá tens o teu afilhado. Que nome lhe queres dar?” E ele, sem pensar duas vezes: “O primeiro nome quero o meu – Manuel. O resto é contigo.” Assim ficou: Manuel, pelo padrinho e António, pelo meu pai.
A minha comadre Adriana acompanhou tudo isto com a dignidade silenciosa de quem compreende os laços que a vida tece entre homens que sobreviveram juntos.
Já passaram quarenta anos sem nos vermos. Quarenta anos. E, no entanto, a amizade permanece intacta, quase diária, quase familiar. Ela é a mais fervorosa leitora de tudo o que escrevo. Lê, comenta, elogia sem pejo a nossa estima, a nossa cumplicidade, a memória dos meus pais e dos seus. Quando ela fala dos meus pais e dos seus, há uma luz entre nós que não se finge. Não é só saudade, é respeito. É continuidade.
É a forma como os que partiram continuam a viver nos que ficaram. Falamos dos quatro, como quem acende velas que nunca se apagam.
A minha comadre Adriana tem uma maneira muito particular de olhar para mim, mesmo à distância. Não é um olhar de comadre apenas. É um olhar de quem me viu lutar por um lugar ao sol, de quem conhece o meu ritmo, a minha alma, o meu silêncio, a minha amizade. É um olhar de quem sabe que a vida me moldou, mas que eu também moldei a vida dos outros.
Hoje a porta já não se abre como nos anos 70. Mas abre-se outra coisa: a mensagem dela, a leitura dela, a voz dela, a presença dela. E cada vez que isso acontece, a minha casa – mesmo a esta distância – muda de ritmo.
A tarde abranda. O coração assenta. A memória respira.
A minha comadre Adriana não é apenas uma boa pessoa. É raiz. É testemunho. É fidelidade rara. É uma das vozes amigas que testemunharam a minha vida passada, mesmo vivendo no Porto. Há pessoas que não passam pela nossa história. Ficam nela, mesmo quando já não estão ao alcance dos nossos olhos.
E ela é uma delas.