O entardecer chega sempre com uma espécie de sabedoria antiga. Não fala, não explica, não exige. Apenas pousa. E hoje na Beirã ele pousou com aquela luz dourada que parece vir de dentro da terra, como se os montes respirassem fundo antes de entregarem o dia à noite.
O calor ainda se sente, mas já não manda. O ar, pesado das poeiras vindas de longe, começa a perder a arrogância. E eu, sentado no meu lugar habitual, deixo que o corpo encontre o seu descanso natural, aquele que só chega quando o sol se inclina e o mundo abranda.
Há um silêncio especial nesta hora. Não é ausência de som: é presença de calma. As cigarras diminuem o canto, os pássaros procuram os últimos ramos, e a terra, que durante o dia pareceu inquieta, agora repousa como um animal cansado que finalmente encontra sombra.
E eu observo tudo isto com a serenidade de quem já viveu muitos entardeceres. E, no entanto, cada um traz algo novo: uma memória que regressa, uma saudade que se acende, uma gratidão que se instala.
Hoje pensei no meu amigo da GNR, na batalha que ele enfrenta, na força que tento sempre incutir-lhe. Pensei também na minha gente – avós, pais, mestres – que me ensinaram a ser este homem que anima, que acolhe, que permanece.
O entardecer é também isso: um espelho onde vemos quem fomos, quem somos, quem tentamos ser.
A luz foi baixando aos poucos. O céu tornou-se uma mistura de cobre e violeta. Respirei devagar, como quem aceita o convite da tarde, que me dizia:
“Pousa. Descansa. A vida continua amanhã.”
Há uma beleza discreta neste instante. Uma beleza que não precisa de palavras, mas que a escrita tenta guardar, como quem recolhe água numa concha para que não se perca.
E assim termina o meu dia: sem estrondo, sem pressa, mas com a dignidade tranquila de quem sabe que cumpriu o seu papel. E ali, sentado, a olhar o horizonte, senti que a paz, quando chega, chega sempre devagar.
Foto Maria Coelho
