quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O vento que desce da serra

Há ventos que não passam – chegam. O vento que desce da serra no verão, é um deles. Não é rajada, não é tumulto, não é força bruta. É uma presença antiga, quase sábia, que atravessa a aldeia com a serenidade de quem conhece todos os caminhos.
Ao fim da tarde, quando estou pelo quintal, há sempre um momento em que o vento muda. Não é apenas ar em movimento, é uma mudança de tom. A serra, lá em cima, parece respirar fundo e enviar para a Beirã um sopro que traz memórias, cheiros, histórias que não sei de onde vêm. É um vento que não empurra, recorda.
E eu fico muitas vezes parado, a senti-lo. Não faço nada. Não digo nada. Só deixo que o vento me toque. E nesse toque, há sempre uma espécie de revelação silenciosa: a vida, quando abranda, mostra coisas que a pressa esconde.
O vento traz o cheiro da terra quente, o rumor das árvores que se inclinam, o som distante de um melro que não se deixa calar. Traz também qualquer coisa de infância, talvez o eco de verões longos, talvez o pó das estradas antigas, talvez o riso de gente que já não está. O vento, quando desce da serra, não traz apenas ar: traz tempo.
No seu exercício diário de caminhar pelo quintal, a marida passa muitas vezes ao meu lado com aquele passo discreto que não perturba nada. Ela sente o vento, mas não o comenta. Sabe que aquele momento é meu, que é ali que encontro uma espécie de equilíbrio que não se explica. O vento mexe-lhe o cabelo, levanta-lhe a blusa, mas ela segue, tranquila, como quem reconhece uma visita habitual.
Há dias em que o vento chega mais fresco. Outros em que chega morno, quase como um abraço. Mas nunca chega vazio. Traz sempre qualquer coisa: uma lembrança, uma sensação, uma pergunta, uma resposta. É como se a serra falasse, e o vento fosse a sua voz.
Sentado num banco de alvenaria da varanda do meu quintal, deixo que ele me envolva. A luz baixa, o silêncio cresce, a aldeia abranda. E eu sinto que aquele instante contém uma verdade que não se aprende em livros: a natureza não nos fala alto, fala-nos apenas quando estamos prontos para a ouvir.
O vento que desce da serra não é apenas fenómeno. É companhia. É mensagem. É memória. É a prova de que há forças no mundo que não se veem, mas que nos moldam. E eu encontro naquele sopro que atravessa o quintal, uma verdade que me acompanha: há ventos que não passam por nós; passam por dentro de nós.
Texto e foto