segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Diálogo comigo mesmo

Às vezes olho para estes campos e falo comigo em silêncio. Pergunto-me porque é que o passado me chama tanto, porque é que certas imagens antigas continuam a acender-se dentro de mim como se tivessem ficado à espera. E respondo-me, com calma: não é doença, não é peso, não é fuga.
É amor. É raiz.
Eu sei porque volto sempre a estas lembranças. Foram os anos mais felizes da minha vida: uma infância livre, uma juventude cheia de vozes, de passos, de gente. Recordo o assobio dos pastores, o cantar dos galos ao desafio e o ladrar dos cães nos quintais, o rumor das hortas cuidadas, as árvores carregadas de fruto. Recordo a Vida, inteira, presente, espalhada por todos os lugares da aldeia.
E quando agora caminho por estes mesmos sítios e vejo o abandono, o mato a tomar conta do que era cuidado, a ausência de quem trabalhava com dignidade e humildade, sinto um aperto que não é tristeza profunda, é desencanto. É a estranheza de ver o meu mundo rural esquecido por quem devia protegê-lo.
É a consciência de que aquilo que me formou está a desaparecer diante dos meus olhos.
Mas digo-me, com sinceridade: esta saudade é boa. Não me prende, não me derruba, não me fecha. Ela sustenta-me. Ela lembra-me quem sou, de onde venho, o que me moldou. E digo-me ainda: tudo tem o seu tempo. O que partiu cumpriu o seu propósito. O que ficou continua a respirar em mim.
Eu não vivo agarrado ao passado, vivo acompanhado por ele. E é essa companhia que me dá força para cuidar do que ainda posso: uma parede retocada, um altar recomposto, um gesto simples que devolve dignidade ao que permanece.
E continuo a falar comigo, porque às vezes é preciso ouvir a própria voz interior para não perder o rumo. Digo-me que não estou sozinho nesta memória porque há outros que sentem o mesmo, que carregam a mesma saudade boa, que olham para esta terra com o mesmo respeito.
Digo-me que cada gesto meu, por pequeno que seja, é uma forma de manter acesa a chama do que fomos.
No fundo, falo comigo para não esquecer a terra onde nasci e que continua a ser o meu lugar de verdade. Enquanto eu a amar, ela não estará totalmente abandonada. Porque a memória, quando é limpa e honesta, também é uma forma de cuidar.