segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Crónicas da Beirã – O homem que sabia o tempo

Na minha infância, conheci pessoas que não precisavam de relógio para saberem as horas. Sempre houve na Beirã homens que liam o tempo como quem lê a terra, com uma precisão que não vinha de estudos, mas da vida.
Um desses homens era conhecido por todos, não só pelo nome, mas também pelo modo como caminhava. Era o meu Pai.
Caminhava devagar. Não por cansaço, mas por jeito. Era daqueles que acordava antes da luz, que sabia quando o vento ia virar, que distinguia o canto de cada ave como quem distingue vozes de família.
E tinha uma habilidade rara: sabia exatamente quando era tempo de fazer cada coisa. Tempo de semear. Tempo de regar. Tempo de esperar. Tempo de colher. Tempo de calar. Tempo de falar. Nunca se enganava.
Dizia que tinha aprendido tudo com o pai, que por sua vez aprenderam com o avô e que assim se passava o saber de mão para mão, de gesto para gesto, sem livros, sem teorias, sem discursos. Apenas vida.
Eu lembro-me de o ver muitas vezes à porta da casa, sentado num banco de madeira e a olhar o céu como quem conversava com ele. Não era um olhar de quem procurava sinais, era um olhar de quem reconhecia o que via. E quando eu lhe perguntava:
– Acha que amanhã chove?
Ele não respondia logo. Olhava para o horizonte, respirava fundo, e dizia:
– Amanhã, ao meio da manhã, pinga.
E pingava. Sempre.
Mas o que mais me impressionava não era a sua precisão, era a serenidade. Ele nunca se apressava. Nunca corria. Nunca parecia atrasado. Nunca parecia adiantado.
Estava sempre no tempo certo.
Um dia, perguntei-lhe também como é que ele sabia tudo aquilo. Sorriu-me, com aquele sorriso que só aparece em quem viveu muito sem se queixar, e respondeu:
– O tempo fala. A gente é que anda sempre a correr demais e sem tempo para o ouvir.
Fiquei com essa frase guardada como quem guarda uma chave antiga. E percebi que nela havia uma sabedoria que não se ensinava, revelava-se. Uma sabedoria que não se impunha, oferecia-se. Uma sabedoria que não se exibia, vivia-se.
Hoje continuo a morar na rua e na casa onde ele sempre morou, já não o vejo sentado no banco, mas vejo o tempo. E às vezes, quando o vento muda de repente, ainda me apanha a pensar:
“Ele teria sabido.”
E sorrio. Porque há pessoas que, mesmo depois de partirem, continuam a dizer-nos as horas.