terça-feira, 22 de setembro de 2026

O tempo das folhas voantes

O Outono de 2026 chegará oficialmente pelas 01:05 da madrugada de 23 de setembro, mas a verdade é que já anda por aí, a fazer-se anunciar sem pressas, como só ele sabe. O Outono nunca chega de rompante: chega em sussurros. Primeiro muda o tom da luz, depois altera o cheiro do ar, e por fim instala-se nos gestos da natureza, como quem se senta à mesa sem pedir licença.
As folhas das árvores, que até há pouco exibiam um verde vivo, começam agora a render-se à paleta da estação. Há amarelos que parecem ouro velho, castanhos que lembram madeira antiga, vermelhos que se aproximam do sangue e da brasa. Cada folha é uma despedida lenta, uma carta escrita sem palavras, um adeus que não dói. E quando o vento passa, parece que folheia um livro que só a natureza sabe ler.
Os pilriteiros, esses generosos guardiões do campo, estão no auge da sua abundância. As bagas vermelhas brilham como pequenas joias penduradas nos ramos, chamando a passarada para o banquete diário. Melros, tordos, pintassilgos, todos sabem que ali há sustento antes que o frio aperte. É um espetáculo silencioso, mas tão vivo que parece uma celebração da própria vida.
As tardes, embora ainda quentes durante parte do dia, já se tornam mais amenas, mais curtas, mais contemplativas. Há nelas uma melancolia doce, como se o sol estivesse a aprender a despedir-se. A luz inclina-se, o ar abranda, e o silêncio ganha profundidade. E, noite fora, quando a madrugada se insinua pelas janelas, já apetece uma colcha sobre os lençóis – não tanto pelo frio, mas por esse conforto que o corpo pede quando pressente que o tempo está a virar a página.
O Outono é isso: um intervalo entre o que foi e o que será. É o tempo da lentidão, da aceitação, da serenidade. É o momento em que a natureza nos ensina a arte de cair sem medo.
E aqui, na Beirã, este tempo das folhas voantes, tem um significado maior. As ruas antigas conhecem bem o seu ritmo. As casas, algumas silenciosas, outras teimosamente vivas, parecem respirar ao mesmo compasso das árvores. Há uma dignidade profunda na forma como esta terra recebe o Outono, como quem acolhe um velho amigo que regressa sempre, mesmo quando o mundo lá fora se esquece de nós.
Talvez seja isso que o Outono traz: a certeza de que, apesar de tudo, há ciclos que não falham. Há renascimentos que não dependem de ninguém. Há beleza que não precisa de aplauso. E há silêncios que dizem mais do que qualquer palavra.
Quando a madrugada de 23 de setembro marcar oficialmente a chegada da estação, o Outono já cá estará sentado conosco, a ouvir o campo, a recolher o que o verão deixou, a preparar o que o inverno há de pedir. Porque o tempo das folhas voantes não começa numa hora exata. Começa quando o coração percebe que também ele precisa de abrandar.
E talvez seja por isso que, ano após ano, o Outono nos encontra sempre no mesmo lugar: entre o que fomos e o que ainda seremos.