Prometi a um grande amigo das escritas que estaria com ele às cinco da tarde, mas a vida – e a Maria Manuela – tinham outros planos. Fiquei ali, no carro, no parque de estacionamento, com o chapéu bem assente e aquela expressão que só quem já esperou demasiado tempo conhece.
A Maria Manuela entrou na manicure com aquele ar inocente de quem diz “é só um bocadinho”.
E eu, tolo, acreditei.
Passou meia hora. Depois uma hora. Depois outra. E eu ali, firme, paciente, quase filosófico, a olhar para o volante como quem contempla o destino.
O carro tornou-se o meu pequeno mundo. Vi pessoas a passar, vi um gato gordo que parecia avaliar-me, vi o sol a descer devagarinho como se estivesse a gozar comigo.
De vez em quando levantava os olhos para a porta do salão, na esperança de ver a Maria Manuela sair.
Mas qual quê?
Só risos lá dentro, o som da lima, e aquela certeza antiga que já devia estar escrita na Constituição: As senhoras são… senhoras. Pronto.
E eu, que sei a sorte que tenho, lá fiquei, porque não preciso de ir três horas para a cabeleireira, nem duas horas para a manicure, nem enfrentar aquele universo paralelo onde o tempo deixa de ser tempo e passa a ser… feminino.
Quando ela finalmente saiu arranjada, feliz, a brilhar como se tivesse sido polida por anjos, eu sorri. Um sorriso pequeno, resignado, mas verdadeiro.
Porque no fundo, a verdade é esta: Há esperas que cansam, mas há amores que compensam.
E o meu paciente amigo das escritas, continuou – se calhar continua ainda – lá, à minha espera.
Sem chapéu mas com humor, porque estas histórias só acontecem a quem vive com alguém que sabe transformar “um bocadinho” em duas longas horas de vida.
Desculpe lá. Amigo…
Texto e foto