Durante décadas, o relógio da torre da igreja da Beirã viveu como um velho teimoso: avançava porque alguém lhe dava corda, parava quando o cansaço chegava, e retomava o tempo apenas quando mãos pacientes lhe devolviam o movimento. Era um relógio que dependia de gente e talvez por isso tivesse alma.
Quem passava na rua, sabia que aquele som metálico, ritmado, não era apenas mecânico. Era o sinal de que alguém tinha subido as escadas estreitas, empurrado a porta pesada, enfrentado o pó acumulado, e dedicado uns minutos ao tempo da aldeia. O relógio não marcava só as horas: marcava a presença de quem cuidava dele.
Mas um dia, depois de tantos anos de corda e de espera, o relógio deixou de pedir. Foi restaurado, afinado, modernizado e passou a funcionar sozinho, com a precisão silenciosa das máquinas que já não dependem de mãos humanas. A torre ganhou eficiência, mas perdeu um ritual.
A primeira vez que o relógio tocou sem ter sido acordado por ninguém, houve um estranhamento quase infantil. A aldeia ouviu as badaladas como quem reconhece uma voz familiar, mas percebe que ela mudou de tom. Continuava a ser o relógio da Beirã, mas já não era o mesmo.
Para alguns, foi alívio: menos trabalho, menos preocupação, menos escadas para subir. Para outros, foi perda: o tempo deixou de ser cuidado por gente e passou a ser cuidado por fios e circuitos.
E eu senti isso de forma particular. Porque conheço o valor das coisas que só existem porque alguém lhes dedica tempo. Porque sei que há objetos que não são apenas objetos, são também testemunhos de quem os manteve vivos.
O relógio da torre, agora independente, marca as horas com uma pontualidade impecável. Mas já não precisa de ninguém. E essa autonomia, que é progresso, traz consigo uma saudade discreta: a saudade do gesto humano que fazia o tempo avançar.
Ainda assim, quando as badaladas ecoam pela aldeia, há uma espécie de reconciliação. O som continua a ser o mesmo que acompanhou gerações. A torre continua a ser a mesma que vigia a Beirã. E o tempo, esse, continua a correr, com ou sem corda. O relógio deixou de pedir. Mas a aldeia não deixou de ouvir.
Texto e foto
.jpg)