quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Quando a minha Mãe ainda me reconhecia

Há memórias que não se contam para comover. Contam-se para acordar. Para iluminar. Para lembrar aos distraídos que a velhice não é um fim, é um capítulo que exige mais delicadeza do que força.
Eu tive a honra, e digo honra sem hesitar, de cuidar dos meus pais e dos meus avós até ao último dia. Não por obrigação. Não por dever. Mas porque era ali, naquele cuidado, que se revelava a verdade inteira do amor.
E houve um momento – desses que nos ficam gravados na pele – que ainda hoje me acompanha como uma espécie de bênção dolorosa.
A minha mãe vivia já mergulhada na demência. A doença tinha-lhe roubado quase tudo: a autonomia, a memória, a lógica dos gestos, a capacidade de colaborar. Mas não lhe tinha tirado a alma. Essa, resistia.
Havia dias em que ela se recusava a deixar-se tratar. Fechava-se, refilava, afastava as mãos, perdia-se num medo que não sabia explicar. E eu, exausto, impotente, sentia o peso do mundo nos braços.
Até que um dia, no meio daquela luta, chorei. Chorei abraçado a ela, como um filho que volta a ser pequeno. E balbuciei quase sem voz aquilo que me saía do fundo da alma:
– Perdoa-me, mãe… faço o que posso e não sei fazer melhor.
E foi então que aconteceu o impossível.
Perdida na nebulosidade da demência, ela entendeu o meu choro. Abraçou-me também. Chorou comigo. Acalmou. E deixou-se cuidar.
Ali, naquele instante, não estava a doença. Estava a mãe. A minha mãe inteira. A que me embalou, a que me protegeu, a que me conhecia para lá das palavras. A que, mesmo sem memória, ainda sabia quem eu era, não pelo nome, mas pelo coração.
E é por isso que digo, com a serenidade de quem o viveu: a dignidade não desaparece. Mesmo quando a lucidez se perde. Mesmo quando o corpo falha. Mesmo quando a mente se desfaz como papel molhado.
A dignidade permanece. Permanece no olhar. Permanece no toque. Permanece no amor que ainda reconhece o amor.
Cuidar de um velho não é um ato técnico. É um ato moral. É um espelho onde vemos quem somos. É o momento em que devolvemos – com juros – tudo o que recebemos.
E quem nunca viveu isto talvez não entenda. Mas quem viveu sabe: a velhice não é decadência. É verdade. É o lugar onde o amor se mostra sem adereços, sem máscaras, sem ilusões.
Eu sabia a mulher e mãe que tive. E sabia a mulher e mãe que ali estava agora. E amei-as às duas – a de antes e a de depois – com a mesma reverência.
Porque a dignidade não é negociável. E quando a respeitamos, mesmo no limite, mesmo na dor, mesmo na demência… iluminamos o mundo.

A Heravirgém e o milagre das estações

Há uma parede em Santo António das Areias que me acompanha como um velho segredo. No verão passo por ela quase sem dar por isso: está coberta de verde, discreta, fresca, como uma sombra que se encosta à rocha para fugir ao calor.
Mas quando chega o outono, a Heravirgém transforma-se diante de mim, e eu, que a conheço há tantos anos, fico sempre surpreendido como se fosse a primeira vez.
As folhas mudam devagar, primeiro um rubor tímido, depois um vermelho que se espalha como fogo manso. É uma combustão silenciosa, dessas que a natureza faz sem pedir testemunhas.
E eu paro.
Paro sempre. Porque há coisas que não se devem atravessar com pressa e esta trepadeira é uma delas.
A pedra e o saibro tornam-se altar e a Heravirgém, com o seu manto ardente, parece celebrar um rito antigo: o da despedida. O outono, ali, não é decadência, é revelação.
É o instante em que a natureza nos mostra que a beleza também vive na mudança, que o mundo é digno de louvor mesmo quando se prepara para adormecer.
Quando fotografei esta parede senti que estava a guardar mais do que uma imagem. Guardei um gesto da terra, uma respiração do tempo, uma lição que me acompanha: ver é diferente de olhar.
Olhar é passar; ver é permanecer.
E eu permaneço.
Permaneço sempre que passo, na Avenida Dr. Manuel Magro Machado onde a Heravirgém me recorda que a vida tem esta capacidade de se reinventar em silêncio, sem alarde, sem anúncio, apenas com cor.
Talvez seja por isso que gosto tanto do outono: porque nele encontro esta dignidade tranquila, esta nostalgia que não dói, esta promessa de que tudo o que muda pode ser belo.
E a Heravirgém, fiel ao seu destino, continuará a pintar o muro enquanto houver pedra para abraçar e luz para se despedir.
Texto e foto

terça-feira, 29 de setembro de 2026

O outro lado da vedação


Há uma linha verde que separa o meu quintal do mato que se estende por três quilómetros de raia e solidão até Espanha. Não pretende ser muro nem fronteira, apenas uma discreta vedação erguida sobre a secular parede que divide a minha propriedade da Tapada da Rabela.

De um lado o nosso cuidado: os pratos com sobras de comida, as cascas de fruta em pedacinhos, o pão já duro, e a ternura que a Maria Manuela põe em tudo o que toca.

Do outro lado e mal anoitece, o rumor dos javalis, das raposas, dos ginetes e saca-rabos que pontualmente se apresentam, certos de que por aqui encontrarão sempre algum alimento.

Ouço-os chegar como quem escuta velhos vizinhos amigos. Os javalis farejam o ar com a solenidade, as raposas avançam com a tímida cautela de quem não quer assustar, os ginetes movem-se como sombras antigas da serra e os saca-rabos surgem e desaparecem como os segredos da noite.

E eu aqui, não como dono do quintal, mas como guardião de uma convivência que só existe onde o coração a sabe escutar.

A Maria Manuela – exatamente como já a minha mãe fazia – cumpre o seu ritual com a paciência de quem conhece o valor das pequenas coisas: parte, separa, distribui. E ao vê-la, lembro-me de como a Beirã foi sempre este lugar onde as fronteiras nunca serviram para separar, mas para lembrar que tudo o que vive tem direito ao seu espaço, ao seu silêncio, ao seu pedaço de mundo.

Talvez seja por isso que a vedação me inspira.

Cresci a ver a fronteira que se atravessava com coragem e silêncio, porque, mesmo ao cantinho da parede deste quintal, era o saltador da vereda para os homens que iam e vinham na noite com passos leves sobre a terra, no contrabando que era sobrevivência, risco, mas também cumplicidade.

E agora, tantos anos depois, são animais selvagens, perante a escassez de alimento que atravessam a sua própria fronteira, não para fugirem, mas porque confiam. Na Beirã até os bichos sabem que ainda há mãos amigas. Sabem que do lado de cá ninguém levanta muros, levanta gestos.

E nesses gestos a aldeia continua a respirar dia após dia, como se dissesse ao mundo: “Do outro lado das vedações também há vida, também há fome, também há necessidade de ajuda.”

Dou por mim a pensar que a minha vedação não separa nada, apenas recorda que o mundo é maior do que o nosso quintal e que a solidariedade, quando é verdadeira, passa sempre para o outro lado.

José Coelho
Texto e foto

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Crónicas da Beirã – O homem que sabia o tempo

Na minha infância, conheci pessoas que não precisavam de relógio para saberem as horas. Sempre houve na Beirã homens que liam o tempo como quem lê a terra, com uma precisão que não vinha de estudos, mas da vida.
Um desses homens era conhecido por todos, não só pelo nome, mas também pelo modo como caminhava. Era o meu Pai.
Caminhava devagar. Não por cansaço, mas por jeito. Era daqueles que acordava antes da luz, que sabia quando o vento ia virar, que distinguia o canto de cada ave como quem distingue vozes de família.
E tinha uma habilidade rara: sabia exatamente quando era tempo de fazer cada coisa. Tempo de semear. Tempo de regar. Tempo de esperar. Tempo de colher. Tempo de calar. Tempo de falar. Nunca se enganava.
Dizia que tinha aprendido tudo com o pai, que por sua vez aprenderam com o avô e que assim se passava o saber de mão para mão, de gesto para gesto, sem livros, sem teorias, sem discursos. Apenas vida.
Eu lembro-me de o ver muitas vezes à porta da casa, sentado num banco de madeira e a olhar o céu como quem conversava com ele. Não era um olhar de quem procurava sinais, era um olhar de quem reconhecia o que via. E quando eu lhe perguntava:
– Acha que amanhã chove?
Ele não respondia logo. Olhava para o horizonte, respirava fundo, e dizia:
– Amanhã, ao meio da manhã, pinga.
E pingava. Sempre.
Mas o que mais me impressionava não era a sua precisão, era a serenidade. Ele nunca se apressava. Nunca corria. Nunca parecia atrasado. Nunca parecia adiantado.
Estava sempre no tempo certo.
Um dia, perguntei-lhe também como é que ele sabia tudo aquilo. Sorriu-me, com aquele sorriso que só aparece em quem viveu muito sem se queixar, e respondeu:
– O tempo fala. A gente é que anda sempre a correr demais e sem tempo para o ouvir.
Fiquei com essa frase guardada como quem guarda uma chave antiga. E percebi que nela havia uma sabedoria que não se ensinava, revelava-se. Uma sabedoria que não se impunha, oferecia-se. Uma sabedoria que não se exibia, vivia-se.
Hoje continuo a morar na rua e na casa onde ele sempre morou, já não o vejo sentado no banco, mas vejo o tempo. E às vezes, quando o vento muda de repente, ainda me apanha a pensar:
“Ele teria sabido.”
E sorrio. Porque há pessoas que, mesmo depois de partirem, continuam a dizer-nos as horas.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Nostalgia

Há dias em que a memória acorda antes de nós. Levanta-se devagar, espreguiça-se como um gato ao sol, e começa a puxar-nos pela mão para lugares onde já fomos felizes – ou onde acreditámos que a felicidade era uma coisa simples, quase doméstica, como o cheiro do pão quente ou o canto das rolas ao amanhecer.

Nestes dias, dou por mim a revisitar caminhos antigos. Vejo-me mais novo, mais leve, talvez mais distraído da vida, mas sempre atento às pequenas grandezas que o tempo teima em esconder. Recordo o largo da aldeia, as conversas demoradas à porta das casas, o riso fácil dos vizinhos que já partiram, e aquele silêncio bom das noites de verão, quando o mundo parecia caber inteiro dentro de um banco de madeira.

E lembro-me de mim – não o homem que sou agora, mas o rapaz que acreditava que tudo era para sempre. O rapaz humilde, de infância curta, que aos onze anos já sabia o peso do trabalho e a leveza dos sonhos. O rapaz que corria sem destino, que guardava segredos no bolso, que achava que os avós eram eternos e que o tempo era apenas uma palavra dita sem pensar.

Hoje, quando fecho os olhos, ainda consigo ouvir a voz da minha avó a chamar-me para dentro: “Ó Zé, olha que arrefece!”, como se o frio fosse uma ameaça e o colo dela um abrigo universal. E vejo o meu avô sentado no banco, a afiar a navalha com a paciência dos homens que sabem que a vida não se apressa.

Às vezes penso que foi ali que aprendi a ser quem sou: alguém que guarda, alguém que escuta, alguém que não tem pressa de partir, mesmo quando a vida me levou para longe, para quartéis, guerras e minas que me fizeram crescer depressa demais.

A nostalgia não dói. A nostalgia aquece. É uma manta velha que ainda cheira a casa.

E quando me deixo envolver por ela, sinto que tudo o que vivi continua aqui, não como sombra, mas como raiz. A infância pobre mas cheia de amor, o trabalho precoce, os anos de farda, a dureza das minas, a procura honesta de um lugar ao sol: tudo isso permanece como quem acende uma luz discreta dentro de nós.

Talvez seja isso envelhecer com serenidade: perceber que o passado não é um sítio onde se volta, mas um sítio que se traz conosco.

E eu trago-o. Trago tudo. Como quem carrega um tesouro que não se vê, mas que ilumina.

José Coelho

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Tempos que já não voltam

Havia noites em que o mundo cabia numa mesa pequena, duas cadeiras e o brilho inocente de quem ainda não sabia o peso das horas.
O vento trazia o cheiro das flores e das promessas, e nós, ingénuos, acreditávamos que tudo seria sempre assim leve, risonho, eterno.
Mas o tempo, esse mestre discreto, ensinou-nos que a eternidade vive apenas nas memórias. Hoje, ao olhar esta fotografia, sinto que o passado não se perdeu: repousa aqui, no sorriso da Francisca e da Mariana, intacto e luminoso como uma estrela antiga.
Foto das férias grandes de 2020

Tempo de enceleirar

Há gestos que são mais antigos do que as palavras. “Enceleirar” é um deles – este ritual de pendurar cebolas e alhos, como quem guardava o sol dentro da casa. Cada cabeça de alho, cada cebola dourada, trazia consigo o trabalho de meses e a memória de gerações que aprenderam a viver com o que a terra dava.

Noutros tempos, a vida não era fácil. O sustento vinha das mãos e da paciência. O que não se comprava na mercearia nascia nas hortas, e o que sobrava era guardado para o inverno, seco, limpo, protegido.

As “sobrecamas” tornavam-se celeiros suspensos, e o cheiro da lenha misturava-se ao das colheitas penduradas, num perfume de abundância modesta, mas digna.

Hoje, ao olhar estas tranças de cebolas e alhos, sinto que nelas repousa mais do que alimento: repousa a sabedoria dos que sabiam esperar, dos que semeavam em dobro para não faltar, dos que faziam da casa um abrigo contra o esquecimento.

É o outono que começa, entre a fartura das sementeiras e o murmúrio das recordações.
Porque “enceleirar” não é apenas conservar, é também lembrar.

Beirã, setembro de 2026

José Coelho

terça-feira, 22 de setembro de 2026

O tempo das folhas voantes

O Outono de 2026 chegará oficialmente pelas 01:05 da madrugada de 23 de setembro, mas a verdade é que já anda por aí, a fazer-se anunciar sem pressas, como só ele sabe. O Outono nunca chega de rompante: chega em sussurros. Primeiro muda o tom da luz, depois altera o cheiro do ar, e por fim instala-se nos gestos da natureza, como quem se senta à mesa sem pedir licença.
As folhas das árvores, que até há pouco exibiam um verde vivo, começam agora a render-se à paleta da estação. Há amarelos que parecem ouro velho, castanhos que lembram madeira antiga, vermelhos que se aproximam do sangue e da brasa. Cada folha é uma despedida lenta, uma carta escrita sem palavras, um adeus que não dói. E quando o vento passa, parece que folheia um livro que só a natureza sabe ler.
Os pilriteiros, esses generosos guardiões do campo, estão no auge da sua abundância. As bagas vermelhas brilham como pequenas joias penduradas nos ramos, chamando a passarada para o banquete diário. Melros, tordos, pintassilgos, todos sabem que ali há sustento antes que o frio aperte. É um espetáculo silencioso, mas tão vivo que parece uma celebração da própria vida.
As tardes, embora ainda quentes durante parte do dia, já se tornam mais amenas, mais curtas, mais contemplativas. Há nelas uma melancolia doce, como se o sol estivesse a aprender a despedir-se. A luz inclina-se, o ar abranda, e o silêncio ganha profundidade. E, noite fora, quando a madrugada se insinua pelas janelas, já apetece uma colcha sobre os lençóis – não tanto pelo frio, mas por esse conforto que o corpo pede quando pressente que o tempo está a virar a página.
O Outono é isso: um intervalo entre o que foi e o que será. É o tempo da lentidão, da aceitação, da serenidade. É o momento em que a natureza nos ensina a arte de cair sem medo.
E aqui, na Beirã, este tempo das folhas voantes, tem um significado maior. As ruas antigas conhecem bem o seu ritmo. As casas, algumas silenciosas, outras teimosamente vivas, parecem respirar ao mesmo compasso das árvores. Há uma dignidade profunda na forma como esta terra recebe o Outono, como quem acolhe um velho amigo que regressa sempre, mesmo quando o mundo lá fora se esquece de nós.
Talvez seja isso que o Outono traz: a certeza de que, apesar de tudo, há ciclos que não falham. Há renascimentos que não dependem de ninguém. Há beleza que não precisa de aplauso. E há silêncios que dizem mais do que qualquer palavra.
Quando a madrugada de 23 de setembro marcar oficialmente a chegada da estação, o Outono já cá estará sentado conosco, a ouvir o campo, a recolher o que o verão deixou, a preparar o que o inverno há de pedir. Porque o tempo das folhas voantes não começa numa hora exata. Começa quando o coração percebe que também ele precisa de abrandar.
E talvez seja por isso que, ano após ano, o Outono nos encontra sempre no mesmo lugar: entre o que fomos e o que ainda seremos.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

As nossas netas

Há alegrias que não se explicam – acontecem. As minhas netas são uma dessas alegrias. A Francisca, a Mariana e a Filipa chegam sempre como quem traz luz no bolso, como quem carrega no olhar uma espécie de futuro que se renova cada vez que entram pela porta da Toca dos Coelhos.
Quando elas chegam, a casa muda de respiração. O silêncio transforma-se em riso, a rotina transforma-se em movimento, a tarde transforma-se em promessa. É como se cada uma delas trouxesse uma estação diferente: a Francisca, a primavera; a Mariana, o verão; a Filipa, o outono doce que ainda guarda muito sol.
A Filipa tem aquele jeito atento, adulto, que observa tudo com uma maturidade que surpreende. Há nela uma serenidade que não é comum na idade, uma forma de estar que me lembra, às vezes, a minha própria juventude: discreta, mas firme; calma, mas presente. Quando ela fala, a casa escuta.
A Mariana é diferente. Tem aquele brilho nos olhos que anuncia aventura, aquele riso que se espalha pela sala como quem acende luzes invisíveis. É rápida, viva, cheia de pequenas ousadias que fazem da casa um lugar mais leve. A Mariana não entra, irrompe. E ao irromper, traz alegria.
A Francisca, já mais alta que eu e quase uma senhora, tem ainda aquele encanto que só as crianças guardam: o espanto fácil, a ternura espontânea, a confiança absoluta. Ela chega sempre com passos pequenos, mas com uma presença enorme. É a que me procura primeiro, a que me chama, a que me abraça sem pedir licença. E nesse abraço, há uma verdade que nenhuma palavra alcança.
Quando elas ficam cá a dormir, a casa transforma-se. Os quartos ganham vida, os corredores ganham som, a cozinha ganha movimento. Há mochilas, casacos, risos, histórias, perguntas, pequenos segredos. E eu, no meio de tudo sou um avô que não precisa de fazer nada para ser tudo.
A avó Manuela observa-as com aquele olhar de ternura que só as mulheres que sabem cuidar conseguem ter. Ela organiza, prepara, arruma, orienta, mas sempre com aquele sorriso que diz: “É bom tê-las aqui.” E eu sei que é mesmo bom. Porque a casa, com elas, não é apenas casa, é futuro.
Há momentos em que as três se juntam no quintal, a correr, a inventar jogos, a mexerem nas plantas. E eu fico ali, a olhar, com a serenidade que só os avós conhecem: a serenidade de quem vê a vida continuar. De quem percebe que tudo o que viveu, tudo o que construiu, tudo o que sofreu, tudo o que amou está ali, multiplicado, renovado e transformado em riso.
As netas não são apenas crianças. São continuidade. São raiz que avança. São memória que cresce. São o futuro a acontecer dentro da nossa casa.
E eu, que tantas vezes vivi entre estradas, urgências e compromissos, encontro nelas – na alegria que trazem – uma verdade que me acompanha: há amores que não se explicam; reconhecem-se no brilho dos olhos de uma criança que nos chama “avô”.

Crónicas da Beirã - O coelho da raia

Há histórias que não precisam de ser inventadas. Basta escutá-las. E quando nos chegam da boca de um amigo de infância, com aquele brilho nos olhos de quem revive o passado como se fosse agora, tornam-se ainda mais preciosas.
Esta é uma delas.
Naqueles tempos antigos da raia, quando a vida era dura e a mesa tinha muitos filhos à volta, havia homens que sabiam sobreviver com engenho, coragem e uma pontaria que não vinha dos livros. Um desses homens era o sogro do meu amigo – um homem bom, de muitos filhos, mãos calejadas e uma habilidade rara: caçava com pau.
Sim, com pau. Não era metáfora. Era necessidade.
Numa dessas idas a Espanha, a pé, como se fazia então, o meu amigo e o sogro levavam às costas umas coisitas. Nada de grande valor, mas o suficiente para trazerem de volta outras coisitas que alimentassem a família. Contrabando? Talvez. Mas na raia, contrabando era apenas outro nome para sobrevivência.
A certa altura, já no regresso, o sogro avistou um coelho pousado numa pedra. Olhou, mediu a distância, apanhou uma giesta, improvisou uma moca, e num gesto rápido, seco e certeiro, derrubou o bicho. “Já temos jantar”, disse, como quem anuncia uma bênção.
Voltaram a casa com as mochilas mais cheias do que tinham ido e ainda o coelho para a família. Tudo parecia ter corrido bem.
Dias depois, no matadouro onde o meu amigo trabalhava, aproximou-se dele um guarda fiscal. Homem bom, conhecido de todos, daqueles que sabiam distinguir a lei, da vida.
Com um sorriso discreto, perguntou-lhe:

– Então… e o coelhito, estava bom?
O meu amigo ficou sem fala.
– Qual coelho? – balbuciou, atrapalhado.
O guarda explicou. Eles tinham sido vigiados por uma patrulha da Guarda Fiscal. Tinham-nos visto à ida com as mochilas. Tinham-nos visto à volta. Tinham visto o coelho abatido à paulada. Tinham visto tudo.
Quatro infrações de uma vez: contrabando na ida, contrabando na volta, caça ilegal, e método proibido. Mas não fizeram nada. Esconderam-se. Deixaram-nos passar. Protegeram-nos. Porque sabiam da prole imensa que esperava em casa por comida. Porque conheciam o homem e a sua vida.
Porque entendiam que aquilo não era crime, era necessidade.
O meu amigo da infância contou-me isto com aquela emoção e respeito que só aparece quando a memória se mistura com gratidão. E eu fiquei a pensar que, na nossa raia, havia uma justiça que não cabia nos códigos: a justiça dos homens que conheciam a fome, a dignidade, e a coragem dos outros.
E é por isso que esta história cabe inteira nas Crónicas da Beirã.
Porque é verdadeira.
Porque é humana.
Porque é nossa.
Que a terra seja leve a esses dois bondosos Beiranenses: ao sogro do meu amigo da infância e também ao guarda fiscal, lá, onde já descansam em paz, não muito longe um do outro.

domingo, 20 de setembro de 2026

A humildade como força

A humildade costuma ser confundida com fraqueza. Como se fosse uma espécie de apagamento, uma renúncia, uma forma de estar sempre um passo atrás. Mas quem vive com humildade verdadeira sabe que ela é, na realidade, uma das maiores forças que um ser humano pode ter.
Ser humilde não é diminuir-se. É não precisar de se engrandecer.
A humildade nasce da consciência tranquila de quem sabe quem é, de onde vem, o que vale, e não precisa de provar nada a ninguém. É uma força silenciosa, que não se exibe, mas que sustenta. É a coragem de reconhecer limites, de aprender com os outros, de ouvir antes de falar, de agradecer antes de exigir.
E há ainda outra coisa: a humildade aproxima. A vaidade afasta, cria distância, ergue muros. A humildade, pelo contrário, abre portas, cria pontes, permite que os outros se aproximem sem medo.
Um homem humilde não é aquele que se esconde. É aquele que não tem medo de ser visto como é.
E isso exige força para admitir erros, força para reconhecer méritos alheios, força para não transformar cada vitória numa bandeira, força para caminhar sem pisar ninguém.
A humildade é também liberdade: liberta-nos da necessidade de competir, de comparar, de provar. Quem é humilde vive mais leve, porque não carrega o peso das máscaras.
No fim, a humildade é uma força que não se impõe, revela-se. E quando se revela, ilumina.
Votos de uma excelente semana, pessoal.
Cuidem-se...

O lugar onde mora o silêncio

Há manhãs em que acordo antes do sol, não por obrigação, mas por um hábito antigo. A casa ainda dorme e eu caminho devagar para não perturbar esse descanso que só existe nos primeiros minutos do dia. A madeira estala como se respirasse, o relógio marca o tempo com uma paciência que já não se encontra nas pessoas e eu acendo a luz mais suave da cozinha, aquela que ilumina só o suficiente para não ferir a penumbra.
Nesse instante, chega o silêncio.
Não entra pela porta nem pela janela; instala-se. Senta-se ao meu lado como faziam os velhos amigos da Beirã quando íamos tomar café e conversar sem pressas. O silêncio tem essa delicadeza: não exige, não disputa espaço, não tenta convencer. Apenas existe, e, ao existir, permite que eu exista também.
Com o passar dos anos, percebi que o mundo foi ficando mais barulhento. As pessoas falam alto, as notícias atropelam-se, as urgências multiplicam-se. Tudo parece querer ocupar espaço, como se o ruído fosse prova de vida. Talvez por isso eu tenha começado a procurar o silêncio como quem procura abrigo.
Num mundo que tanto grita, o silêncio tornou-se o meu refúgio.
Todos os dias ao fim da tarde, saio para o quintal. A luz cai oblíqua sobre as pedras e o cheiro da terra quente mistura-se com o das folhas das figueira. Há sempre um momento em que o vento abranda e o mundo parece suspenso. Ali, o silêncio não é apenas som, é paisagem. É memória.
É aquilo que sobra quando o ruído se afasta.
E nesse espaço, começo a ouvir coisas que não escuto no tumulto: o eco das minhas próprias perguntas, a lembrança dos afetos que resistem, a voz discreta das coisas simples que sustentam a vida. O silêncio, afinal, funciona como um espelho. Mostra o que carregamos em excesso, o que já não nos serve, o que nos pesa sem necessidade.
Mostra também o que permanece: a ternura dos gestos pequenos, a fidelidade das rotinas, a luz que ainda mora nos lugares onde fomos felizes.
Recordo-me de uma tarde de outono, em que o meu pai me ensinou a ouvir o campo. “O silêncio é só a natureza a falar mais baixo”, disse-me ele, enquanto caminhávamos. Na altura não entendi. Hoje, percebo que ele me estava a ensinar a escutar aquilo que não tem som e que essa escuta é uma forma de sobrevivência.
O silêncio também me devolve a minha Manuela. Não a dos dias apressados, das tarefas, das conversas interrompidas, mas a do essencial, aquela que caminha ao meu lado há cinquenta anos. No silêncio, vejo-a como se fosse a primeira vez: o modo como pousa a mão na mesa, o jeito de ajeitar o cabelo, a serenidade com que olha o mundo.
Há amores que se revelam mais no silêncio do que na palavra.
E talvez seja por isso que, para mim, o silêncio se tornou uma forma de regresso. Não um afastamento do mundo, mas um reencontro comigo e com tudo o que me fez ser quem sou.
É ali, onde nada exige explicações, onde o tempo abranda, onde a alma respira sem vigilância, que encontro aquela verdade que o barulho tenta esconder: a de que viver é, muitas vezes, saber escutar o que não tem som.
O silêncio, afinal, é o lugar onde a vida se organiza. Onde o passado encontra o presente sem se atropelar. Onde a memória se ajeita. Onde o coração descansa. E, quando o mundo volta a gritar – porque volta sempre – é desse silêncio que tiro a força para continuar.
Tenham um excelente Domingo.

sábado, 19 de setembro de 2026

O impulso de escrever

Há dias em que acordo com a sensação de que o mundo me fala baixinho. Não é uma voz clara, nem urgente, é um murmúrio que vem da terra, das velhas paredes, do cheiro do café, do canto da passarada que anuncia o dia antes de eu abrir a janela.
É nesse instante que sinto essa inquietação a mexer cá dentro: aquela irresistível vontade de transformar o que vejo e ouço em palavras, como quem tenta guardar água numa concha.
Não sei se isto é vocação, destino ou apenas teimosia. Mas sei que, quando algo me encanta ou me fere, quando uma luz me toca ou uma lembrança me atravessa, nasce logo em mim o impulso de escrever.
É como se a vida me pedisse tradução e eu, obediente, me sentasse a escutá-la.
Escrever, para mim, é uma forma de conversar com o mundo. Não para o convencer de nada, mas para o acompanhar. Para lhe dizer: “Eu vi-te e senti-te, porque estou aqui.”
Mas talvez também para que os outros, ao lerem, reconheçam qualquer coisa sua nas minhas palavras: um gesto, uma sombra, uma saudade, um riso que lhes ficou por dentro.
Há quem escreva para deixar marca. Eu escrevo para não deixar que a vida me escape entre os dedos.
A Beirã ajuda-me, porque este lugar tem uma maneira própria de nos ensinar a olhar: o silêncio que não pesa, o calor que insiste fora de tempo, o outono que chega devagarinho, como quem pede licença.
Aqui, tudo parece pedir uma crónica, desde as pedra antigas que guardam muitas histórias, até ao vento que muda de direção sem avisar.
E eu, que não sei ficar indiferente ao que me rodeia, acabo sempre por transformar o que sinto, num texto. Não por vaidade, mas por necessidade.
Porque só escrevendo consigo dar forma ao que me inquieta e ao que me sossega. Porque só escrevendo encontro o meu lugar no mundo.
Talvez isto seja uma vocação: uma urgência mansa, uma fidelidade ao que me toca, uma vontade de existir com mais nitidez.
Foto Pedro Coelho