sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Duas Estrelas

Há quem diga que os filhos são o reflexo do que fomos. Eu prefiro pensar que são o eco do que semeámos, e que, quando o eco é generoso, é porque a semente foi boa.
Hoje a “Toca dos Coelhos” viu chegar uma montanha de lenha e com ela, o peso do trabalho que parecia não ter fim. Mas antes que o cansaço se instalasse, apareceu o Manel, o filho mais velho, sem ser chamado, sem promessas, apenas movido por aquele instinto que nasce do amor e da gratidão.
Pegou no carrinho de mão, fez a parte mais dura, e deixou ao pai a tarefa de arrumar, como quem diz:
– Descansa, que eu trato disto.
O Pedro, longe mas sempre presente, já fez o mesmo noutras ocasiões. Entre os dois há uma constelação de gestos que não se apagam: ajuda, respeito, ternura, e essa luz discreta que só os filhos verdadeiramente bons sabem emitir.
Por isso, quando escrevo que tenho dois filhos que são duas estrelas, não é figura de estilo. É constatação. É orgulho. É amor em estado puro.
Obrigado, filhote Manel Coelho.
Gosto muito de ti.
Texto e foto

Logo que o Outono venha...

... arranja lenha! E cá tá ela...
Foto José Coelho

O ritual do pequeno-almoço

Há rituais que não se explicam, vivem-se. O pequeno almoço, na minha casa, é um deles. Não tem pompa, não tem invenção, não tem a exuberância das mesas de hotel. Tem apenas torradas de pão de mistura e café com leite. No entanto, esse gesto repetido, quase sempre igual, tem uma força que anima o dia inteiro.

A máquina do café com filtro de papel passa-o com a precisão com que se afina um instrumento. O leite aquece devagar, sem ferver, como se soubesse que o excesso estraga a harmonia. O pão, cortado com cuidado, entra na torradeira como quem entra num palco. E eu, sentado à mesa, espero aquele momento com uma serenidade que não encontro em mais lado nenhum.

O pequeno almoço não é apenas alimento. É uma espécie de ancoragem. É o ponto onde o dia começa a ganhar forma, onde o corpo desperta e a alma se organiza. É ali que percebo se o mundo está alinhado ou se vai exigir mais de mim.

Há quem acorde com pressa, com urgência, com o peso das tarefas. Eu aprendi a acordar com este ritual. As torradas chegam à mesa com o cheiro quente do pão acabado de transformar. O café com leite, na chávena branca, tem uma cor que me lembra sempre o início das coisas: nem escuro, nem claro, apenas começo de mais um dia.

Enquanto como, penso muitas vezes na importância das constâncias. O mundo muda depressa demais, as notícias atropelam-se, os compromissos acumulam-se. Mas no meu pequeno almoço, tudo é previsível, tudo é seguro, tudo é familiar. E essa familiaridade é uma forma de resistência. Uma forma de dizer ao dia: “Eu começo por mim, não por ti.”

Os odores do café acabado de fazer e do pão torrado com manteiga, dão-me uma dimensão quase espiritual. Não falam disso, não teorizam, não filosofam. Mas este ritual possui uma delicadeza que me adoça o espírito para o dia inteiro

Depois do pequeno almoço, há sempre um instante de pausa. A mesa fica com migalhas, a chávena ainda morna, o pano dobrado ao lado. E eu fico ali, por breves minutos, a olhar para tudo isto como quem contempla uma obra de simplicidade. Porque é na simplicidade que a vida se revela completa. E é nestes rituais que encontramos a força para enfrentar o que vem.

O pequeno almoço não é apenas rotina. É uma forma de estar no mundo. É a lembrança de que o dia começa melhor quando começa devagar. E eu encontro neste gesto repetido, a mais discreta das liberdades.

Tenham um excelente dia.

José Coelho

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Da raça do junco

Há quem atravesse décadas como quem atravessa uma ponte: passa, olha de relance e segue adiante. Eu não. Eu vivi cada mudança como quem sente o chão a deslocar-se sob os pés. Em três ou quatro décadas, o mundo à minha volta transformou-se de forma tão profunda que, por vezes, parece que vivi dois séculos dentro do mesmo corpo.
Nada disto era suposto, talvez. Mas tornou-se inevitável. A vida muda, o tempo empurra, os costumes desfazem-se, os ritmos aceleram, e aquilo que era firme torna-se apenas memória.
Hoje, com setenta e quatro anos, carrego o olhar de quem viu nascer e desaparecer mundos inteiros. A terra é a mesma, alguns rostos também, mas o lugar… esse já não é o que era.
A aldeia cresceu com o progresso, mas perdeu parte da sua alma. Ganhou luzes, perdeu silêncio. Ganhou conforto, perdeu carácter. E muitos dos que lhe davam vida partiram – uns por necessidade, outros porque o seu tempo aqui simplesmente terminou.
Aceito que tudo mude. É o curso natural da existência. O que ainda me espanta – e inquieta – é a facilidade com que muitos se desresponsabilizam dos seus atos, justificando comportamentos sob qualquer pretexto, como se a consciência fosse agora um objeto descartável.
Não sou assim. Nunca fui. Venho de uma linhagem de gente desta região – Castelo de Vide, Marvão, e até da vizinha Espanha. Gente unida, enraizada, respeitadora, orgulhosa dos seus princípios e tradições. Gente que sabia que a palavra valia mais do que qualquer documento timbrado.
Foi nesse ambiente que cresci: honra sem alarde, educação sem ostentação, respeito sem esforço. Os meus pais e avós nunca tiveram facilidades, mas viveram honestamente, sustentando-se do seu trabalho sem invejar o que era dos outros.
Humildes, mas gigantes na sua forma de estar. Nunca um mau exemplo, nunca uma má palavra.
O respeito era lei: entre eles, para com os filhos e netos, para com toda a comunidade. É a eles que devo o que sou e o que procurei transmitir aos meus filhos.
Os valores fundamentais não se aprendem na escola. Aprendem-se no berço, no silêncio das atitudes, na mão que guia sem empurrar.
Por isso, mesmo perante este “vale tudo” social, não mudarei a minha forma de ser. Cada um responde pelo que diz, pelo que faz e pelas razões que escolhe para agir.
O tempo, esse sim, é o melhor juiz. Cedo ou tarde, tudo regressa ao seu devido lugar. Não tenho dúvidas. Sou e serei sempre da raça do junco.
Posso vergar com a força dos ventos.
Mas quebrar… nunca.

Ultimo trimestre

2026

O dom da simplicidade

Há quem precise de muito para se sentir vivo. Aqui, basta o rumor da brisa nas folhas, o mugido tranquilo dos gados, o cheiro da terra ao fim da tarde. É uma vida que não se mede em pressas, mas em instantes de verdade.

Sim, há distâncias: para as compras, para as consultas, para os exames. Mas há também uma proximidade que o mundo urbano perdeu – a proximidade com o essencial. O pão sabe melhor quando o ar é puro, o corpo descansa melhor quando o silêncio é inteiro, e o coração aprende a ouvir-se quando o ruído se cala.

Viver aqui é aceitar que não se pode ter tudo, mas que se pode ter o que realmente importa. É acordar com o canto dos pássaros e adormecer com o perfume do mato. É saber que a paz não é ausência de movimento, mas presença de sentido.

E nessa presença há uma bênção discreta: a de quem vive em harmonia com o tempo, com a terra e consigo mesmo.

José Coelho

E a vida, teimosa, insiste

Há dias em que acordo com a sensação de que o passado está mais perto do que devia. Como se os meus pais ainda estivessem na cozinha, como se a voz deles ainda ecoasse pela casa, como se a infância estivesse ali ao virar da esquina na rua. E nesses dias, a saudade aperta, mas a vida insiste.
Insiste em continuar. Insiste em chamar por mim. Insiste em pedir-me que avance, que caminhe, que faça o que sempre fiz: seguir em frente, com o que sou e com o que me deram. Aprendi isso desde muito cedo.
O tempo não pára por causa da dor. Não se suspende por causa da perda. Não se encolhe por causa do medo. Continua, porque tem de continuar. E eu aprendi a continuar com ele.
Hoje, quando caminho pelas ruas da aldeia, sinto que cada pedra conhece o meu nome. Sinto que cada porta me viu crescer. Sinto que cada árvore sabe quem fui e quem sou. E é essa familiaridade que me segura quando a saudade ameaça derrubar-me.
A vida continua não porque eu queira, mas porque ela própria tem um movimento que não depende de mim. E eu sigo-o como quem segue o curso de um rio: às vezes manso, às vezes turbulento, mas sempre a avançar.
Há momentos em que me lembro do meu pai, na sua serenidade que parecia eterna. E penso: “Se ele estivesse aqui, ia aconselhar-me a seguir.” Não com palavras porque ele não era homem de discursos, mas com aquele olhar que dizia tudo sem dizer nada.
Lembro-me também da minha mãe e na força silenciosa com que sustentava a casa inteira. E penso: “Ela não me ia deixar parar.” Não por exigência, mas porque acreditava que a vida é para ser vivida, mesmo quando dói.
E por isso continuo. Continuo por eles. Continuo por mim. Continuo pela terra que me moldou. Continuo pelos que ainda me acompanham. Continuo porque a vida, teimosa como sempre, me chama todos os dias.
Há quem diga que o tempo cura. Não sei se cura. Mas sei que amacia. Sei que torna a dor mais habitável. Sei que transforma a saudade numa espécie de companhia que já não fere, apenas lembra.
E enquanto a vida insistir, eu insistirei com ela: em escrever, em recordar, em honrar quem me fez ser quem sou. Insistirei em caminhar pela vida como quem caminha pela própria alma.
Porque se a vida continua, eu continuarei com ela.
Texto e foto