Aos 07 de Março de 2015 nasceu este blogue que tal como o seu antecessor TocadosCoelhos pretende apenas ser um ponto de encontro e de entretenimento pautando-se sempre pelas regras da isenção, da boa educação e do civismo em geral. Sejam muito bem-vindos.
sexta-feira, 2 de outubro de 2026
Duas Estrelas
O ritual do pequeno-almoço
Há rituais que não se explicam, vivem-se. O pequeno almoço, na minha casa, é um deles. Não tem pompa, não tem invenção, não tem a exuberância das mesas de hotel. Tem apenas torradas de pão de mistura e café com leite. No entanto, esse gesto repetido, quase sempre igual, tem uma força que anima o dia inteiro.
A
máquina do café com filtro de papel passa-o com a precisão com que se afina um
instrumento. O leite aquece devagar, sem ferver, como se soubesse que o excesso
estraga a harmonia. O pão, cortado com cuidado, entra na torradeira como quem
entra num palco. E eu, sentado à mesa, espero aquele momento com uma serenidade
que não encontro em mais lado nenhum.
O
pequeno almoço não é apenas alimento. É uma espécie de ancoragem. É o ponto
onde o dia começa a ganhar forma, onde o corpo desperta e a alma se organiza. É
ali que percebo se o mundo está alinhado ou se vai exigir mais de mim.
Há
quem acorde com pressa, com urgência, com o peso das tarefas. Eu aprendi a
acordar com este ritual. As torradas chegam à mesa com o cheiro quente do pão
acabado de transformar. O café com leite, na chávena branca, tem uma cor que me
lembra sempre o início das coisas: nem escuro, nem claro, apenas começo de mais
um dia.
Enquanto
como, penso muitas vezes na importância das constâncias. O mundo muda depressa
demais, as notícias atropelam-se, os compromissos acumulam-se. Mas no meu pequeno almoço,
tudo é previsível, tudo é seguro, tudo é familiar. E essa familiaridade é uma
forma de resistência. Uma forma de dizer ao dia: “Eu começo por mim, não por
ti.”
Os
odores do café acabado de fazer e do pão torrado com manteiga, dão-me uma
dimensão quase espiritual. Não falam disso, não teorizam, não filosofam. Mas este
ritual possui uma delicadeza que me adoça o espírito para o dia inteiro
Depois
do pequeno almoço, há sempre um instante de pausa. A mesa fica com migalhas, a
chávena ainda morna, o pano dobrado ao lado. E eu fico ali, por breves minutos,
a olhar para tudo isto como quem contempla uma obra de simplicidade. Porque é
na simplicidade que a vida se revela completa. E é nestes rituais que
encontramos a força para enfrentar o que vem.
O
pequeno almoço não é apenas rotina. É uma forma de estar no mundo. É a
lembrança de que o dia começa melhor quando começa devagar. E eu encontro neste
gesto repetido, a mais discreta das liberdades.
Tenham
um excelente dia.
José Coelho
quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Da raça do junco
O dom da simplicidade
Há quem precise de muito para se sentir vivo. Aqui, basta o rumor da brisa nas folhas, o mugido tranquilo dos gados, o cheiro da terra ao fim da tarde. É uma vida que não se mede em pressas, mas em instantes de verdade.
Sim,
há distâncias: para as compras, para as consultas, para os exames. Mas há
também uma proximidade que o mundo urbano perdeu – a proximidade com o
essencial. O pão sabe melhor quando o ar é puro, o corpo descansa melhor quando
o silêncio é inteiro, e o coração aprende a ouvir-se quando o ruído se cala.
Viver
aqui é aceitar que não se pode ter tudo, mas que se pode ter o que realmente
importa. É acordar com o canto dos pássaros e adormecer com o perfume do mato.
É saber que a paz não é ausência de movimento, mas presença de sentido.
E
nessa presença há uma bênção discreta: a de quem vive em harmonia com o tempo,
com a terra e consigo mesmo.
José Coelho




