segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Memória e gratidão

Hoje semeei as favas da próxima primavera, como o meu pai me ensinou, repetindo gestos aprendidos há muitos anos.
Enquanto a enxada abria os regos, dei por mim a pensar que as sementes não eram a única coisa que estava a deitar à terra.
Ia também a memória dos ensinamentos recebidos, a paciência herdada dos mais velhos e o respeito por uma terra que nunca nos faltou.
As favas hão-de dar belas e saborosas vagens, prenhes de grãos tenros e nutritivos, quando chegar a primavera.
Mas os valores que as semearam nasceram muito antes, nas mãos de quem me ensinou a amar o trabalho, a simplicidade e a honestidade.
Não tenho mérito pelos valores que carrego. Tenho é gratidão por aqueles que, com tanto carinho, me ensinaram a ser autossuficiente.
Nesta tarde de Finados, depois de os ir visitar na sua última morada, trouxe-os comigo para que a sua memória me acompanhasse nesta tarefa.
Ao abrir cada rego, era como se voltasse a ouvir os seus conselhos e a sentir a presença discreta daqueles que tanto me ensinaram.
Beijinhos daqui até ao Céu, Pai António Coelho, Avô Zé Lourenço, tio Chico Lourenço, tio Joaquim Lourenço e tio Raimundo Lourenço.
Nunca vos esqueço.
Descansem em paz.
Vídeo Maria Coelho

domingo, 1 de novembro de 2026

Uma geração irrepetível

Somos da geração que não volta. Não porque tenha desaparecido de repente, mas porque o mundo que a moldou já não existe. Ficou para trás, guardado numa espécie de baú invisível onde vivem as memórias mais simples e, por isso mesmo, as mais preciosas.
Fomos crianças que iam para a escola a pé, mochila às costas, sem telemóveis, sem localizadores e sem relógios a contar cada minuto. Os nossos pais despediam-se à porta com um aviso rápido e uma confiança tranquila. E nós seguíamos caminho, conversando, correndo ou sonhando acordados, como se a estrada fosse uma extensão natural da nossa liberdade.
Ao chegar a casa, havia uma missão urgente: despachar os trabalhos escolares. Não porque fôssemos particularmente estudiosos, mas porque lá fora nos esperava a verdadeira aventura. A rua era o nosso parque temático, o nosso campo de jogos e o nosso ponto de encontro.
Brincávamos até o sol se esconder atrás dos telhados. Inventávamos mundos inteiros com quase nada. Um canto da praça transformava-se num castelo, um terreno vazio numa floresta misteriosa, uma simples bola em motivo suficiente para juntar meia dúzia de amigos durante horas.
Quando chegava o anoitecer, o esconde-esconde tornava-se ainda mais emocionante. As sombras ajudavam-nos a desaparecer e a imaginação fazia o resto. Não havia ecrãs a ocupar-nos o tempo. Havia ruas, árvores, gargalhadas e uma vontade inesgotável de estar juntos.
Fizemos bolos de lama que nunca foram para o forno, construímos brinquedos de papel e passámos tardes inteiras à beira de um lago ou de um ribeiro, convencidos de que não existia lugar melhor no mundo. E talvez não existisse mesmo.
Depois chegou a tecnologia, ainda tímida, como quem pede licença para entrar. O walkman parecia uma maravilha saída do futuro. As cassetes VHS traziam o cinema até à nossa sala. As disquetes guardavam os nossos primeiros trabalhos e as fotografias eram tiradas com parcimónia, porque cada disparo contava. Havia depois a espera pela revelação, uma ansiedade que os mais novos dificilmente compreenderão.
Lembro-me também de ver vizinhos de chave de fendas na mão, a ajustarem as antenas para que a imagem deixasse de dançar no ecrã. Crescemos a ver os nossos pais resolverem problemas com engenho, persistência e paciência. Sem darem conta, ensinavam-nos que quase tudo tem conserto quando não se desiste à primeira dificuldade.
E à noite, já deitados, ainda encontrávamos energia para rir baixinho debaixo dos lençóis, convencidos de que ninguém nos ouvia. Sonhávamos muito, dormíamos pouco e acordávamos sempre com a certeza de que mais um dia extraordinário nos esperava lá fora.
Hoje percebemos que tivemos o privilégio raro de viver entre dois mundos. Conhecemos o tempo do toque e assistimos ao nascimento do clique. Vivemos o analógico antes do digital. Guardámos cartas, fotografias e memórias em caixas de sapatos antes de passarmos a guardá-las em nuvens invisíveis.
Somos, talvez, a última geração que sabe exatamente o que significava esperar. Esperar pela fotografia revelada, pela carta que chegava pelo correio, pelo programa favorito na televisão ou simplesmente pelo amigo que aparecia à porta para chamar para brincar.
Por isso, quando olhamos para trás, não sentimos apenas nostalgia. Sentimos também gratidão.
A geração que fomos pode estar a desaparecer pouco a pouco, mas aquilo que viveu permanece intacto dentro de nós. E enquanto houver alguém para recordar esses dias com um sorriso nos lábios, ela nunca desaparecerá por completo.
Porque há gerações que passam.
E há gerações que ficam para sempre na memória.

Os que partiram vivem em nós

No Dia de Todos os Fiéis Defuntos, ou Dia de Finados, como o povo lhe chama com tão enternecida simplicidade a cada 2 de novembro, a saudade bate mais devagar à porta do coração.
É o dia em que muitas pessoas visitam os cemitérios, cuidam das campas dos seus familiares, acendem uma vela, colocam flores e permanecem alguns instantes em silêncio perante a memória daqueles que fizeram parte das suas vidas.
A ausência dói. Dói sempre.
Há lugares à mesa que ficaram vazios, vozes que já não ouvimos, abraços que gostaríamos de voltar a sentir nem que fosse por um instante.
Mas este dia não é apenas um dia de tristeza.
É também um dia de gratidão.
Gratidão pelos pais que nos ensinaram a caminhar, pelos avós que nos deixaram histórias e valores, pelos familiares e amigos que passaram pelas nossas vidas deixando nelas uma marca que o tempo não consegue apagar.
Porque há uma verdade que os anos confirmam: as pessoas podem partir, mas o amor que semearam permanece.
Permanece nas recordações que guardamos, nos ensinamentos que seguimos, nas palavras que repetimos sem dar conta, e até nos pequenos gestos que herdámos daqueles que já não estão fisicamente conosco.
A morte interrompe a presença, mas não apaga a ligação.
Quem amavamos pode ter partido deste mundo, mas nunca parte verdadeiramente do nosso coração.
Neste dia especial, elevemos uma oração por todos os que já concluíram a sua caminhada terrena, e peçamos a Deus que conforte aqueles para quem a saudade continua a ser uma companhia diária.
Que a memória dos nossos entes queridos seja sempre uma fonte de amor, de gratidão e esperança, porque enquanto houver alguém que os recorde com carinho, eles continuarão vivos dentro de nós.
As flores murcham, as velas apagam-se, os anos passam. Mas o amor por quem partiu encontra sempre maneira de permanecer.
As pessoas que amámos continuam a viver nas palavras que nos ensinaram, nos valores que nos transmitiram e nos gestos que repetimos sem sequer darmos por isso.

Memória e gratidão

H oje semeei as favas da próxima primavera, como o meu pai me ensinou, repetindo gestos aprendidos há muitos anos. Enquanto a enxada abria o...