domingo, 3 de maio de 2026

A seguir o percurso dos pais e avós

O caminho faz-se, caminhando! Profissão de Fé da neta Mariana Coelho, na Igreja Paroquial de S. Salvador da Aramenha - Marvão.

Foto José Coelho
03. 05. 2026

Dia de todas as Mães

Que sorte tivemos, eu e as minhas irmãs, havermos merecido das mãos de Deus uma MÃE como tu, nossa estrelinha brilhante. Onde estiveres, descansa em paz. Beijinho doce de quem não te esquece dia nenhum da sua vida.
O teu Zéi.

Adulto antes do tempo

A gente muda. Muda tanto. E quase nunca por vontade própria – é a vida que nos empurra, que nos dobra, que nos obriga a reinventar o que pensávamos ser definitivo. São os tombos que nos arrancam a inocência, os abanões que nos tiram o chão, as certezas que se desfazem como pó entre os dedos, as injustiças vindas de quem menos esperaríamos, as ausências que deixam um eco que nunca mais se cala. Tudo isso abre fendas, desloca alicerces, derruba convicções que julgávamos eternas.
E então só há dois caminhos possíveis: ou o sofrimento nos tempera e solidifica, tornando-nos mais resistentes ao desassossego e mais seguros de nós, ou nos parte em fragmentos, deixando-nos frágeis, apáticos, conformados com uma nova ordem das coisas para a qual já não temos ânimo de lutar.
Na minha meninice e adolescência fui alguém muito distante do homem que hoje sou. Até ir para a tropa era um rapaz alegre, bem disposto, cheio de sonhos e de planos. Nem a humildade do meu camponês berço, nem a precaridade das minhas habilitações literárias me diminuíam a esperança de uma vida melhor. Eu queria ir à luta. Sabia, porém, que havia um obstáculo intransponível entre mim e o futuro que ambicionava – e esse obstáculo não era a pobreza, nem a pouca instrução.
Chamava-se tropa.
No final dos anos sessenta com a guerra de África no auge, ter o serviço militar resolvido era meio caminho para qualquer jovem tentar reinventar o seu destino. A idade da incorporação parecia ainda distante, até ao dia em que um Edital, afixado na vitrina da Junta de Freguesia da Beirã a convocar os mancebos apurados nas sortes de 1968. Aquele papel timbrado com o escudo da República acendeu em mim uma inquietação que já não mais me largou.
Provinciano e ingénuo que pouco saíra da minha aldeia, nada sabia de tropa, do mundo e muito menos de guerra. Mas decidi que era tempo de enfrentar aquele obstáculo que se erguia entre mim e o meu futuro. O Edital falava também da possibilidade de requerer incorporação voluntária – e isso bastou para me incendiar o espírito.
Com 17 anos recém cumpridos, pedi ao meu pai que me autorizasse a ir como voluntário. Naquele tempo só se era dono do próprio destino aos 21. Depois de vencer os protestos da tia Florinda que não compreendia a pressa do seu menino em ir sofrer para a tropa, lá fui com o meu pai – grande e inesquecível amigo – a Marvão, na “camioneta da carreira”, entregar os papéis que ele teve de assinar com o dedo, porque não sabia escrever.
Estávamos em meados de 1969.
Pouco depois chegou a convocatória para a Inspeção Médica no Regimento de Infantaria 16, em Évora. Fui apurado sem surpresa. Em maio do ano seguinte fiz a recruta no BC8 de Elvas, depois a especialidade de transmissões no BC5 em Campolide, onde as boas notas me valeram a promoção a 1.º Cabo.
Mal terminara a especialização quando fui mobilizado para o BCav3871. Passámos por Estremoz, por Santa Margarida, até embarcarmos num Boeing 747 rumo à guerra em Angola. O destino: Belize e as profundezas do Maiombe, no enclave de Cabinda – a floresta do povo fiote, do abacaxi doce, do pau-preto, do petróleo da americana Gulf Oil, do mini-mosquito miruim, das jiboias, dos gorilas, do calor sufocante e do cacimbo pegajoso.
A Zona de Ação do BCav3871 era atravessada por uma única estrada alcatroada, recém inaugurada, que ligava o Miconje a Cabinda. De ambos os lados, a segunda maior floresta do mundo: árvores colossais, mato denso, picadas pantanosas onde os Unimogs se atolavam e carreiros invisíveis onde os guerrilheiros do MPLA, da UPA ou da UNITA se escondiam, colocavam minas, armadilhas, emboscadas.
Ali, cada dia podia ser o último.
Aquele inferno na terra mudou para sempre o rapaz ingénuo que quis ser adulto antes do tempo e para isso vestiu a farda. Foi o alto preço pago pela minha sonhadora pressa de chegar ao futuro.
Felizmente os meus dois rapazes não tiveram de o conhecer…
Foto: Estúdio Cardinho Ramos.
Castelo de Vide -1968

sábado, 2 de maio de 2026

Envelhecer. Um caminho de coragem e aceitação


Envelhecer não é, de facto, tarefa fácil. É um caminho que exige de nós capacidade para abrandar os passos e ajustar o ritmo ao novo compasso do corpo e da mente.

Envelhecer é, acima de tudo, um exercício de aceitação e coragem: aceitação para vestir as mudanças do corpo com dignidade e coragem para deixar para trás a vergonha, o preconceito e os medos que a passagem dos anos inevitavelmente impõe.
Aprender a envelhecer é compreender que a vida tem o seu ciclo natural. É saber soltar as mãos de quem precisa partir – seja por escolha ou por necessidade – e, ao mesmo tempo, abrir os braços para acolher aqueles que decidem ficar.
É um processo de desapego profundo, mas carregado de força, pois cada despedida e cada permanência moldam silenciosamente em quem nos tornamos.
Há na maturidade um convite à solidão saudável: aprender a caminhar por conta própria, despertar em silêncio, resistir ao peso dos dias e enfrentar o olhar daquele homem ou mulher que nos observa do outro lado do espelho.
É aceitar, com serenidade, que tudo na vida tem um fim – os sonhos, os amores, até mesmo a própria existência.
De algum sofrimento que possa ter-nos causado permaneça apenas a certeza de havermos conseguido superá-lo. E dos erros que tivermos cometido, a convicção que muita coisa aprendemos com eles.
Das inevitáveis dificuldades do dia a dia, guardemos só a lembrança do momento em que conseguimos vencê-las e sintamos gratidão por cada ano de vida apesar de tudo o que tenha acontecido, porque importante mesmo foi que nos tornou mais resistentes, experientes e sábios.
Aprender a dizer adeus sem nos irmos embora, recordar sem nos perdermos, chorar o que for preciso até que as lágrimas deem lugar a novos sorrisos, desejos e pequenas alegrias, são parte integrante deste processo.
Envelhecer é, portanto, entender que cada cicatriz e cada memória guardam a prova de uma vida vivida com intensidade, coragem e humanidade.
Não é um caminho fácil, mas é, sem dúvida, um caminho rico em significado e beleza, onde se aprende a valorizar o essencial, a acolher o tempo e a celebrar cada momento.
Mesmo os mais silenciosos.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Para ti, companheira dos nossos últimos 55 anos

Anteontem, mais do que nunca, percebi o que significa caminhar contigo uma vida inteira. Foram dois dias longos, noites quase sem sono, horas que pareciam não passar — mas eu estava ali, como sempre estive, como sempre estarei.
Quando te acompanhei até à Unidade de Intervenção Cardiovascular do “nosso” Lusíadas Lisboa e te levaram para te prepararem, senti o mundo a ficar mais pequeno. Mas três horas depois quando te vi acordar, senti-o a abrir-se de novo.
A tua força, mesmo frágil, é a casa onde vivo há cinquenta e cinco anos. E cuidar de ti não é um dever — é a continuação natural do projeto que começámos a construir quando ainda éramos dois jovens a aprender o mundo.
Hoje estamos já em casa. Tu a recuperar, eu a vigiar-te como quem guarda um tesouro antigo e insubstituível. E enquanto te olho, penso que a nossa história não se mede em datas, mas em gestos: o beijo antes da porta do hospital, a tua mão a procurar a minha, o silêncio que partilhámos sem precisar de palavras.
Se a vida nos deu este susto, também nos deu esta certeza: somos um do outro, e isso basta para atravessar qualquer noite.
Esta selfie que fizemos um minuto antes de entrarmos no hospital a sorrir como se fôssemos para uma festa, mostra bem a nossa resiliência e capacidade de encararmos até os momentos menos bons.
Somos humanos e por isso temos medo, sim. Mas avançamos, mesmo sentindo-o.

Beijinho do teu Zéi...

Desafio ultrapassado

A marida foi internada no Hospital Lusíadas Lisboa em 29.04.2026 para ser submetida a uma Ablação de Fibrilhação Auricular - procedimento invasivo para isolar eletricamente as veias pulmonares, impedindo que impulsos elétricos anormais causem a arritmia.
Esta intervenção é recomendada quando os medicamentos antiarrítmicos não controlam a Fibrilhação Auricular em casos selecionados para restaurar o ritmo sinusal.
Foi realizada por um eletrofisiologista na Unidade de Intervenção Cardiovascular daquela Unidade Hospitalar durante 3 horas com Técnicas de Radiofrequência/Crioablação - Métodos convencionais baseados em calor ou frio e Eletroporação (Campo Pulsado): Nova técnica mais rápida e segura, que utiliza energia para isolar as veias sem danificar tecidos adjacentes.
Após o procedimento cirúrgico com anestesia geral deu entrada na Unidade de Cuidados Intensivos pelas pelas 18h00, onde permaneceu sob vigilância até às 10h45m do dia 30.04. 2026, hora a que lhe foi dada alta para continuar em repouso e tratamentos preventivos no domicílio mais cinco dias.
Outro desafio ultrapassado que esperamos resulte e continue a correr bem, como até aqui, ao que vou ajudar com toda a minha dedicação e empenho.
Força marida, está quase...

Os amigos de verdade e os “amigos” entre aspas.

Os primeiros são raros. Os segundos aparecem por todo o lado, como ervas daninhas em vaso caro.
Os segundos são aqueles que tratam a amizade como um cartão de pontos: dão um sorriso hoje, cobram um favor amanhã. Amizade de ocasião, com prazo de validade e etiqueta com o preço.
Há os amigos de conveniência, que só nos descobrem quando precisam de boleia, de companhia ou de alguém que lhes segure o ego, enquanto eles se equilibram.
Há também os amigos da onça: ronronam pela frente, arranham pelas costas. E não, não vêm todos de Peniche. Alguns vêm de muito mais perto – tão perto que até partilham mesa e sobremesa.
E temos agora também os amigos virtuais: fazem pedidos de amizade nas redes sociais com a mesma facilidade com que ignoram um “olá” quando passam por nós na rua. São amigos de polegar, não de presença.
Depois há os verdadeiros. Os que não precisam de estar perto para estar conosco. Os que celebram as nossas vitórias como se fossem deles e que, quando nos vêem cair, não fazem discursos – fazem presença.
São os que nos dizem a verdade mesmo quando preferíamos uma mentira bonita. Os que nos dão a mão quando é preciso levantar… e os que a largam quando sabem que aquela queda é necessária porque faz parte do nosso caminho.
A amizade verdadeira não desbota. Não se gasta. Não se usa para nada – por isso serve para tudo.
Os velhos amigos são assim: a amizade com eles está sempre no princípio, nunca no fim.

Foto na muralha do segundo dos três castelos do Séc., XIV da Vila de Bellinzona, na Suíça, há duas semanas atrás.