sexta-feira, 5 de setembro de 2025

A melhor opção

Por do sol nos campos da Beirã - Foto José Coelho

Sou, sempre fui, um pouco dado à solidão, talvez em consequência da uma precária meninice onde quase tudo faltava menos o amor familiar, sem direito à adolescência, substituída pela promoção precoce a adulto assim que terminei o ensino básico elementar, como quase a maior parte dos rapazes do meu tempo.

Nunca tive brinquedos e nem sequer aprendi a andar de bicicleta porque nunca tive também nenhuma. Ninguém alguma vez me ouviu queixar, assim como nunca tive inveja ou me senti menos gente do que aqueles meus amigos a quem não faltava quase nada por terem pais com ordenados certos que nada tinham a ver com as precárias jornas dos trabalhadores do campo como o meu.

Um dia ou uma semana de chuva sem trabalhar era um dia ou uma semana sem se receber a jorna. Mas a comida tinha que se por na mesa para alimentar as famílias chovesse ou fizesse sol. Valia-nos a confiança dos merceeiros de então que nunca negavam o avio às donas de casa porque sabiam que logo que recebessem iriam pagar tudo o que deviam.

Distante já desses tempos, a minha vida foi felizmente evoluindo para melhor não sem muita luta, pois foi bastante dura e difícil de vencer até chegar aqui. Tinha onze anos quando fui promovido a adulto. Nunca fiquei com um só centavo sequer do meu modesto ordenado.

Em vez de fazer como faziam alguns dos meus amigos que ficavam com tudo o que ganhavam, eu entregava-o à minha mãe e ficava feliz porque sabia que era uma ajuda para as inúmeras necessidades do governo da casa onde éramos seis à mesa a todas as refeições se não aparecesse mais alguma visita.

Cedo percebi sem que ninguém tivesse de me explicar que não podia ir com a malta da minha idade para as farras e petiscos nos domingos ou dias de festa. Talvez por isso mesmo muito cedo o fascínio pelos livros e pela sua leitura tomou conta de mim.

Primeiro as histórias infantis logo que aprendi a ler, depois já rapazote as aventuras dos cow-boys como o Billy the Kid que alguns amigos me emprestavam e por fim, milagre dos milagres, da Biblioteca Itinerante Calouste Gulbenkian que começou a vir todos os meses à Beirã e emprestava logo três livros de cada vez, à escolha do leitor.

Começaram aí as minhas mais emocionantes aventuras. Vinte mil léguas submarinas, Viagem ao centro da terra, A Ilha misteriosa do Júlio Verne, com centenas de páginas, Guerra e Paz de Tolstoi, Os Miseráveis de Vitor Hugo, Retrato de uma Senhora, O Monte dos vendavais, Camilo, Herculano, Camões, Junqueiro, Garret, e mais, mais, muitos mais autores de centos de livros que literalmente "devorava" na ânsia de conhecer, de aprender, mas também de me evadir um pouco do meu mundo real e das suas incontáveis dificuldades.

Namorisquei a partir dos treze anos por aqui e acoli, ofereci-me voluntário para o serviço militar tão novinho que ainda nem barba tinha. Essa ousadia levou-me para a guerra em Angola onde me tornei ainda mais saudoso da paz e do sossego das minhas paisagens alentejanas.

A seguir fui comer pó de pedra a três mil metros de profundidade nas galerias das Minas da Panasqueira pelos contrafortes da Serra da Estrela, na Beira Baixa.

Casei e pressionado pela família, alistei-me nas fileiras da GNR onde afincadamente estudei para poder candidatar-me aos cursos de promoção, primeiro a cabo, depois a sargento o que consegui, apesar da minha precária formação académica.

Não é de todo possível, no entanto, passar por tantas dificuldades uma vida quase inteira sem ficar marcado. Se cada dificuldade vencida deixou no meu coração o sabor agridoce da conquista, deixou também em simultâneo a amarga perplexidade de algumas inexplicáveis injustiças.

E uma infindável lista de porquês:

- Porquê tudo aquilo?

- Porque teve de ser assim?

- E…

- Porquê a mim?

Nunca encontrei as respostas, razões ou motivos no silêncio das paisagens onde nasci, cresci e me fiz gente, na paz e harmonia que a vida nunca me facilitou. Aprendi contudo, que é o bom e o mau que nos incutem os valores e princípios que acabarão por definir o caminho que queremos seguir:

O do Bem, ou o do Mal.

Sei hoje que acertei na minha opção.

José Coelho

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Agradecimento


Quero expressar a mais sincera gratidão a todos os visitantes - em agosto foram cerca de dois mil - que arranjam tempo e manifestam interesse nas publicações do blogue “Meu vício da escrita” do qual sou o administrador. 

Cada leitura vossa de cada reflexão minha não constitui apenas mais um número. São vozes que ecoam num compromisso de resiliência que visa a preservação de tudo aquilo que é genuinamente nosso, perante a imparável desertificação do território que habitamos.

Esse silencioso feedback não representa para mim motivo algum de vaidade mas em lugar disso estimula-me a prosseguir nesta jornada. Saber que há quem se disponha a ler e a trilhar comigo o mesmo caminho é, sinceramente, o maior e melhor dos incentivos.

As vossas visitas dizem-me ainda também que a luta pela valorização da nossa terra e da sua identidade é responsabilidade de todos nós, feita de pequenos contributos que depois de todos somados, criam sentido. 

Bem hajam pelo apoio que me incita a manter viva a chama da memória. Juntos defenderemos incansavelmente o nosso valioso património comum, material e imaterial.

José Coelho

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Em defesa da nossa terra, dos nossos costumes e da nossa identidade


Nunca foi, nem alguma vez será, a ânsia de reconhecimento ou de recompensas que me move. As palavras que escrevo, os gestos que pratico e o empenho que coloco em cada ação têm origem, unicamente, no amor profundo e incondicional pela terra que me viu nascer, pela gente que nela habita e pelas tradições que nos moldam a identidade.

O pulsar desta terra ecoa em mim como herança de gerações, como marca indelével de um passado que insiste em permanecer vivo, mesmo quando tantos parecem esquecer-lhe o valor. Defendo, com toda a força do meu ser, os usos e costumes que nos distinguem do resto do mundo, ciente de que neles reside a nossa essência e a memória dos que vieram antes de nós.

Não procuro aplausos, nem medalhas, nem palavras de louvor. O que busco é a certeza de que, graças ao esforço de quem ainda sente, de quem ainda resiste ao esquecimento, conseguiremos preservar o que é nosso, impedindo que se dilua no marasmo do desinteresse ou na indiferença de quem tem o dever de proteger o nosso património coletivo.

Cada tradição é uma chama acesa no coração da comunidade; cada costume, uma ponte entre o ontem e o amanhã. Amo profundamente os pequenos gestos, as festas antigas, as lendas sussurradas ao cair da noite, os sabores herdados de mãos calejadas pelo tempo. Amo cada rosto, cada história, cada silêncio tecido de cumplicidade entre vizinhos e familiares.

Por isso luto com unhas e dentes não por vaidade, mas por responsabilidade. Porque sei que o abandono cultural é uma ferida aberta que só sarará se todos nos unirmos, se todos reconhecermos, finalmente, que aquilo que herdámos não tem preço e merece ser perpetuado.

Que nunca nos falte coragem para honrar o que somos. Que nunca nos resignemos ao esquecimento. Enquanto houver memória, amor e vontade de a defender, a nossa terra e a nossa gente não se perderão.

Porque, apesar das adversidades, o interior do nosso país não é um espaço sem futuro. Em várias regiões têm surgido exemplos de inovação e dinamismo com pessoas e coletivos a apostarem em projetos de valorização do património natural e cultural, agricultura biológica, turismo rural e digitalização de serviços. O regresso de jovens qualificados, motivados por novas formas de vida e trabalho, trouxe alguma esperança de revitalização. O teletrabalho, impulsionado pela pandemia, revelou-se uma oportunidade para quem procura qualidade de vida e tranquilidade, sem abdicar da atividade profissional.

No entanto, estas experiências, por mais inspiradoras que sejam, não substituem o papel do Estado e das políticas públicas na inversão de décadas de abandono. É fundamental apostar numa discriminação positiva a favor do interior, com incentivos fiscais, investimento em infraestruturas, reforço dos serviços públicos e apoio à inovação local. O acesso à internet de alta velocidade, a reabilitação de imóveis devolutos, a promoção de atividades culturais descentralizadas e o apoio aos pequenos produtores são algumas das medidas indispensáveis para tornar o interior habitável e atrativo.

Persistir no interior é uma escolha marcada por desafios diários, mas também por um sentido profundo de pertença e de missão. A quem vive longe dos grandes centros, resta a esperança de que o país, enquanto coletivo, compreenda finalmente que a coesão territorial é fundamental para o desenvolvimento sustentado e para a justiça social. O abandono sistemático do interior não é inevitável. Requer vontade política, visão estratégica e, sobretudo, um reconhecimento do valor do interior, não apenas como “reserva” de tradições, mas como espaço de criação de futuro.

As histórias de quem fica, são, afinal, histórias de resistência, coragem e amor à terra.

Cabe à sociedade, como um todo, dar visibilidade a estas vidas, apoiar as suas lutas e garantir que Portugal não se transforme num país de costas voltadas para si próprio. Porque enquanto houver quem insista em continuar a viver cá, haverá sempre esperança para o interior.

José Coelho

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

O abandono do interior e a esperança de quem insiste em ficar

A Beirã e Marvão lá no alto - Foto José Coelho

Vivemos num país de contrastes profundos. De um lado, o litoral concentrado, vibrante, com cidades cheias de vida, oportunidades, crescimento económico, oferta cultural e acesso facilitado a serviços públicos e privados. Do outro, o interior, cada vez mais esquecido, marcado por uma desertificação galopante que se sente não apenas nos números do recenseamento, mas sobretudo na paisagem humana e social que vai rareando, ano após ano.

O abandono sistemático do interior do país não é um fenómeno recente, mas sim resultado de décadas de políticas pouco sensíveis às especificidades destes territórios. Desde meados do século XX, assistiu-se a uma migração constante das populações rurais para os grandes centros urbanos e para o estrangeiro, em busca de melhores condições de vida. A industrialização concentrou-se no litoral e nas áreas metropolitanas, deixando para trás uma economia predominantemente agrícola, envelhecida e fragilizada.

As políticas públicas pouco fizeram para contrariar esta tendência. O investimento em infraestruturas, serviços de saúde, educação e cultura foi, de forma crónica, desigual, sempre em desfavor das regiões com menor densidade populacional. A rede ferroviária foi sendo desmantelada, os centros de saúde e maternidades encerrados, as escolas primárias e secundárias agregadas, forçando percursos cada vez mais longos e difíceis para quem permanece.

A desertificação do interior do país é, antes de tudo, humana. A população escasseia, envelhece e, em muitos concelhos, os nascimentos são tão raros que as escolas fecham por falta de alunos. As praças e ruas das vilas e aldeias encontram-se desertas durante a semana, com exceção dos domingos, quando regressam temporariamente os filhos, netos, familiares e amigos, num ritual de saudade.

Este vazio reflete-se na economia local. O comércio tradicional encerra, porque não há clientela suficiente. Os pequenos produtores agrícolas veem-se sem escoamento para os seus produtos, fruto da concentração dos mercados e da falta de infraestruturas logísticas. A indústria transformadora quase desapareceu e as poucas empresas que resistem debatem-se com dificuldades em atrair mão-de-obra qualificada.

A paisagem sofre, também ela, as consequências deste abandono: os campos tornam-se incultos, as florestas invadem o território agrícola e o risco de incêndios aumenta exponencialmente, face ao abandono da atividade agrícola e à ausência de uma gestão florestal sustentável.

Para quem, como eu, insiste em ficar, o interior é mais do que um lugar de residência; é um espaço de pertença, uma herança afetiva, um modo de viver. Há um orgulho silencioso em resistir ao esvaziamento, em cuidar da casa dos pais, em manter vivas as tradições, em trilhar os mesmos caminhos de infância. No entanto, este apego à terra não ilude as dificuldades que se impõem diariamente.

O acesso a serviços de saúde é frequentemente condicionado por distâncias enormes. Uma simples consulta médica implica viagens de dezenas de quilómetros, com transportes públicos muitas vezes inexistentes ou inadequados. Em situações de emergência o tempo de espera pode ser crítico por falta de pessoal médico e de enfermagem que garanta uma resposta eficaz e humana.

No campo da educação, as escolas são cada vez mais distantes das pequenas aldeias e vilas. As crianças percorrem longos trajetos diários para aceder ao ensino, com horários pouco compatíveis com a vida familiar e comunitária. O fecho das escolas primárias representou, para muitos, o fim de laços de proximidade, de amizades e de memórias.

O isolamento social é uma realidade dura, em particular para os mais idosos, que muitas vezes vivem sozinhos, sem apoio próximo, dependentes de vizinhos ou de serviços sociais que não chegam a todos. A solidão, agravada pelo envelhecimento e pela escassez de oportunidades de convívio, é uma das faces mais tristes da desertificação.

José Coelho

Tempo de mudança

sábado, 30 de agosto de 2025

Continua aí


Para que a memória nunca esqueça estes dias sombrios nem baixe a guarda no combate ao silencioso inimigo que por aí continua subtilmente a fazer das suas.

Bom fim de semana


Do mesmo modo em que um dia chegamos ao mundo sem nada trazermos, virá outro em que iremos partir sem nada levarmos porque o tempo que a cada um de nós é concedido, tem princípio e fim.

Sem dramas, sem medos e sem qualquer tipo de amargura, sei que o meu se está a aproximar em passos certos e seguros, porque o raciocínio, agilidade, força, energia e capacidades cognitivas vão diminuindo a cada dia que passa.

Não terei sido tão feliz quanto desejava, mas fui com toda a certeza o suficiente para reconhecer que valeu a pena ter nascido. Não tive tudo o queria e precisava, mas tive o suficiente para olhar hoje para trás e, com absoluta tranquilidade, dizer:

- Obrigado Vida, por tudo quanto me deste, que não foi pouco.

José Coelho

Estou ainda à espera de quê?

C hegado já para lá dos setenta, há uma pergunta que merece ser feita com sinceridade: estou ainda à espera de quê? Esperei quase toda a vid...