quinta-feira, 15 de outubro de 2026

O silêncio também pode ser casa

Durante muito tempo, o silêncio da Beirã pesou-me. Era um silêncio diferente daquele da infância, mais denso, mais vazio, mais cheio de ausências. As ruas sem gente, as janelas sem luzes acesas, os campos sem crianças a correr… tudo isso parecia dizer-me que o mundo tinha encolhido.
Mas um dia, sem aviso, percebi que o silêncio não era inimigo. Era espelho.
O que me doía não era a aldeia, era a minha forma de a ver. Eu procurava nela o bulício antigo, as vozes que já não voltam, o cheiro das cozinhas cheias, o fumo das chaminés ao fim da tarde. E porque não os encontrava, sofria.
Hoje, porém, aprendi outra coisa: o silêncio também pode ser casa.
É no silêncio que releio a minha vida. É no silêncio que encontro paz. É no silêncio que percebo que a Toca dos Coelhos não é apenas um lugar, é o símbolo de tudo o que construí com esforço honrado, com poupanças contadas, com tijolos pagos um a um e o apoio da “minha” Maria Manuela sempre ao meu lado.
O silêncio já não me rouba nada. Devolve-me.
Devolve-me ao homem que aprendeu a aceitar. Devolve-me ao avô que sabe que a vida continua nos filhos e nas netas. Devolve-me ao marido que descobriu que ainda há tempo para viajar, para ver o mundo, para viver com leveza.
O silêncio, afinal, não é ausência.
É espaço. É chão. É casa.