sábado, 3 de outubro de 2026

Memórias de um “peixe miúdo”

Crónica de um tempo em que ajudar era perigoso

Nesta fotografia de 1974, o meu olhar não era de juventude – era de resistência. Carregava uma melancolia que não vinha da idade, mas das injustiças que me atingiam em cheio. O país mudava depressa, mas na minha freguesia a mudança ainda era suspeita. 

Entre o medo e a esperança, eu era apenas aquilo que muitos diziam: um peixe miúdo. E foi precisamente por ser pequeno que me tornaram alvo fácil.

Escrevo estas linhas sem procurar palco nem aplausos. Quero apenas deixar testemunho de um tempo em que ajudar alguém podia ser visto como crime. Os trabalhadores rurais da freguesia lutavam por direitos que mal sabiam nomear, e eu, que sabia escrever, emprestava-lhes a mão. Preenchia formulários, traduzia leis, dava voz a quem só tinha silêncio. 

O sindicato era composto por homens analfabetos, de origem humilde e honrada, como o meu pai. A minha ajuda não tinha cor partidária nem ambição. Era apenas humanidade. Mas num tempo em que a solidariedade era vista como luxo, esse gesto simples tornou-se suspeito.

Acompanhava frequentemente o “senhor doutor da alfândega”, homem respeitado e falador, que defendia abertamente os direitos dos trabalhadores. Ser seu amigo era, para mim, uma honra, mas também uma sentença. A hostilidade que não ousavam dirigir a ele caía sobre mim.

Eu era o mais fácil de atingir. O bode expiatório. O peixe miúdo. Sabia lá eu, em 1974, o que era “essa coisa” da política. E passados mais de cinquenta anos, pouco mais sei. O que aprendi foi isto: quando falta coragem aos grandes, sobra aos pequenos o peso da culpa.

Foi nesse tempo que surgiu a nova lei da Segurança Social, substituindo as antigas caixas de previdência. Pela primeira vez, trabalhadores que tinham servido durante décadas podiam requerer reforma com testemunhas e formulários simples. Era uma revolução silenciosa da lei, a servir os mais pobres.

Andei de casa em casa, de porta em porta, a informar os idosos dos seus direitos. Preenchi-lhes os requerimentos, fui testemunha número um, e levei os processos a Portalegre no carro do doutor. Pouco depois, todos receberam o deferimento e o dinheiro que lhes era devido. Alguns milhares de escudos quase todos.

Foi o dia em que vi a justiça chegar à aldeia, pela mão de um peixe miúdo.

O meu maior “crime” aos olhos dos patrões e lambe-botas mal-intencionados, foi ter ajudado a garantir o direito à reforma a quem a merecia. Custou aos patrões alguns milhares de escudos, talvez um carro de luxo a menos. E, aos lacaios lambe-botas, a oportunidade de mostrarem a sua mediocridade enquanto pessoas.

Mas deu aos velhos o que lhes pertencia: uma velhice menos penosa. Hoje, olho para a fotografia de 1974 e reconheço o que ela guarda: a tristeza de quem foi injustiçado e a serenidade de quem sabe que fez o que devia. Porque ajudar o próximo nunca foi crime. Foi – e será sempre – um ato de coragem e de humanidade.

José Coelho

Beirã, 1974 – lembrado em 2026