Sou, sempre fui, um
pouco dado à solidão, talvez em consequência da uma precária meninice onde
quase tudo faltava menos o amor familiar, sem direito à adolescência, substituída pela promoção precoce a adulto assim que terminei o ensino básico elementar, como quase a maior parte dos rapazes do meu tempo.
Nunca tive
brinquedos e nem sequer aprendi a andar de bicicleta porque nunca tive também nenhuma.
Ninguém alguma vez me ouviu queixar, assim como nunca tive inveja ou me senti
menos gente do que aqueles meus amigos a quem não faltava quase nada por terem
pais com ordenados certos que nada tinham a ver com as precárias jornas dos
trabalhadores do campo como o meu.
Um dia ou uma
semana de chuva sem trabalhar era um dia ou uma semana sem se receber a jorna.
Mas a comida tinha que se por na mesa para alimentar as famílias chovesse ou
fizesse sol. Valia-nos a confiança dos merceeiros de então que nunca negavam o
avio às donas de casa porque sabiam que logo que recebessem iriam pagar tudo o
que deviam.
Distante já desses
tempos, a minha vida foi felizmente evoluindo para melhor não sem muita luta,
pois foi bastante dura e difícil de vencer até chegar aqui. Tinha onze anos quando fui promovido a adulto. Nunca fiquei com um só
centavo sequer do meu modesto ordenado.
Em vez de fazer como faziam alguns dos meus amigos que ficavam com tudo o que ganhavam, eu entregava-o à minha mãe e ficava feliz porque sabia que era uma ajuda para as inúmeras necessidades do governo da casa onde éramos seis à mesa a todas as refeições se não aparecesse mais alguma visita.
Cedo percebi sem
que ninguém tivesse de me explicar que não podia ir com a malta da minha idade
para as farras e petiscos nos domingos ou dias de festa. Talvez por isso mesmo
muito cedo o fascínio pelos livros e pela sua leitura tomou conta de mim.
Primeiro as
histórias infantis logo que aprendi a ler, depois já rapazote as aventuras dos
cow-boys como o Billy the Kid que alguns amigos me emprestavam e por fim,
milagre dos milagres, da Biblioteca Itinerante Calouste Gulbenkian que começou
a vir todos os meses à Beirã e emprestava logo três livros de cada vez, à
escolha do leitor.
Começaram aí as
minhas mais emocionantes aventuras. Vinte mil léguas submarinas, Viagem ao
centro da terra, A Ilha misteriosa do Júlio Verne, com centenas de páginas,
Guerra e Paz de Tolstoi, Os Miseráveis de Vitor Hugo, Retrato de uma Senhora, O
Monte dos vendavais, Camilo, Herculano, Camões, Junqueiro, Garret, e mais,
mais, muitos mais autores de centos de livros que literalmente
"devorava" na ânsia de conhecer, de aprender, mas também de me evadir
um pouco do meu mundo real e das suas incontáveis dificuldades.
Namorisquei a
partir dos treze anos por aqui e acoli, ofereci-me voluntário para o serviço
militar tão novinho que ainda nem barba tinha. Essa ousadia levou-me para a
guerra em Angola onde me tornei ainda mais saudoso da paz e do sossego das
minhas paisagens alentejanas.
A seguir fui comer pó de pedra a três mil metros de
profundidade nas galerias das Minas da Panasqueira pelos contrafortes da Serra
da Estrela, na Beira Baixa.
Casei e pressionado
pela família, alistei-me nas fileiras da GNR onde afincadamente estudei para
poder candidatar-me aos cursos de promoção, primeiro a cabo, depois a sargento
o que consegui, apesar da minha precária formação académica.
Não é de todo
possível, no entanto, passar por tantas dificuldades uma vida quase inteira sem ficar marcado. Se cada dificuldade vencida deixou no meu coração o sabor
agridoce da conquista, deixou também em simultâneo a amarga perplexidade de
algumas inexplicáveis injustiças.
E uma infindável
lista de porquês:
- Porquê tudo
aquilo?
- Porque teve de
ser assim?
- E…
- Porquê a mim?
Nunca encontrei as
respostas, razões ou motivos no silêncio das paisagens onde nasci, cresci
e me fiz gente, na paz e harmonia que a vida nunca me facilitou. Aprendi contudo, que é o bom e o mau que nos incutem os valores e princípios que acabarão por definir o caminho que queremos seguir:
O do Bem, ou o do
Mal.
Sei hoje que acertei na minha opção.
José Coelho
