Chegado já para lá dos setenta, há uma pergunta que merece ser feita com sinceridade: estou ainda à espera de quê?
Esperei quase toda a vida.
Esperei que os filhos crescessem, que as contas ficassem pagas, que o trabalho abrandasse, que as responsabilidades diminuíssem. Esperei pelo momento certo para viajar, para aprender algo novo, para dizer certas palavras, para regressar a lugares que me ficaram na memória, para concretizar sonhos que fui guardando numa gaveta onde parecia haver tempo infinito.
Mas o tempo tem uma particularidade curiosa: nunca espera por nós.
Enquanto organizava a vida, a vida passava. Enquanto resolvia problemas, os anos iam-se somando. E um dia acordo e percebo que já caminhei mais estrada do que aquela que me falta percorrer.
Olhando para trás, encontro uma infindável lista de coisas adiadas. Contudo, talvez a pergunta mais importante não seja aquilo que não fiz. Talvez seja aquilo que ainda posso fazer.
Porque, enquanto houver manhãs para abrir a janela, caminhos para percorrer, livros para ler, amigos para abraçar, netos para ouvir e sonhos para tentar realizar, a vida continua a oferecer oportunidades.
Não temos poder para mudar uma única página do passado. Mas continuamos a ter a caneta na mão para escrever as próximas.
Há quem pense que a idade serve para desistir. Eu acredito exatamente no contrário. A idade serve para escolher melhor. Para perder menos tempo com o que não importa. Para valorizar mais os afetos, as experiências e a serenidade.
Talvez a coragem que nos faltou aos quarenta apareça aos setenta. Talvez a viagem adiada ainda possa ser feita. Talvez aquela conversa necessária ainda possa acontecer. Talvez aquele projeto esquecido mereça finalmente sair da gaveta.
A vida não pergunta quantos anos temos. Pergunta apenas se ainda estamos dispostos a viver os anos que temos.
Por isso, mais do que olhar para trás e contar os sonhos perdidos, talvez valha a pena olhar para a frente e perguntar:
Que sonho continua vivo dentro de mim?
E, sobretudo, do que estou eu ainda à espera para o viver?
Texto e foto de hoje
