Quando nasci, na Beirã, todas as casas das ruas "do lado de cá da linha" já lá estavam. Eram modestas, de paredes caiadas com cal branca da Escusa, algumas com alisares pintados a cinzento, portas e janelas construídas à mão pelos carpinteiros da terra. Nada havia do brilho uniforme das tintas industriais nem das caixilharias de alumínio que, anos mais tarde, chegariam pela mão do progresso.
Quase encostado à minha casa existia - existe ainda - o lavadouro público, mas então, era a céu aberto. À sua volta estendiam-se grandes lajes de canchos onde as lavadeiras coravam a roupa ao sol. Com o passar do tempo o tanque ganhou uma cobertura, para proteger quem ali ia lavar nos dias frios e chuvosos, com modernos estendais em betão armado, no lugar das antigas pedras.
Porém, as maiores mudanças não aconteceram nas construções.
Antigamente, o lavadouro era um lugar de encontro e convivência. As mulheres disputavam espaço junto à água, cada uma trazendo à cabeça o seu alguidar carregado de roupa. Hoje contam-se pelos dedos de uma só mão as que ainda ali aparecem. Não por causa das máquinas de lavar. Simplesmente porque já quase não vai por aqui havendo quem tenha roupa para lavar e estender.
As casas continuam alinhadas nas ruas, mas muitas delas estão fechadas todo ano, salvo um ou outro fim de semana ou férias. O bulício de outrora foi dando lugar a uma tranquilidade que, por vezes, parece excessiva.
A vida da aldeia concentra-se agora sobretudo "no lado de lá da linha", no bairro mais recente e na unidade de cuidados continuados instalada nas antigas casas dos funcionários da alfândega. Quem atravessa a linha férrea para o lado onde ainda moro encontra ruas vazias, poucas casas habitadas num ritmo muito diferente daquele que conheci e onde reina o silêncio.
Ainda assim, não se veem sinais generalizados de abandono. Salvo raras exceções, como uma casa na Rua Vivas cujo telhado já cedeu ao peso do tempo, a maioria das habitações mantém-se cuidada. Muitas transformaram-se em casas de férias, conservadas com esmero, embora permaneçam vazias durante meses.
Nunca imaginei assistir a esta transformação absurda. Sempre pensei envelhecer entre o riso e a alegria das crianças a brincarem pelas ruas, os cumprimentos dos vizinhos, os apitos dos comboios e a azáfama quotidiana de uma comunidade viva. Ao contrário disso, vi foi partirem familiares, amigos e vizinhos, e as suas casas deixarem de ser habitadas.
Aceitei essas partidas como parte natural da vida. Mais difícil foi habituar-me à mudança do ambiente que durante décadas deu identidade a esta aldeia.
Quando nasci a Beirã era pequena e simples, mas cheia de vida. Cresceu comigo. Modernizou-se, desenvolveu-se e tornou-se um pequeno mundo onde quase nada faltava. Viviam aqui ferroviários, funcionários públicos, trabalhadores rurais, agentes da autoridade, comerciantes e artesãos. As coletividades fervilhavam de atividade e as relações humanas enchiam as ruas de movimento.
Os espanhóis vinham de comboio desde Valência de Alcântara para fazer compras, enquanto nós atravessávamos a fronteira em busca de sapatilhas, caramelos e tantas outras espanholices. Era um intercâmbio natural, espontâneo e saudável. Muitas famílias, incluindo a minha, criaram raízes dos dois lados da fronteira.
Pais, irmãos, sobrinhos e primos repartiam-se entre Portugal e Espanha, quase todos por aqui compreendíamos o castelhano "Extremeño", tal como os nossos vizinhos entendiam o nosso português Alentejano.
Era um mundo simples, pacífico e profundamente humano.
Até os antigos contrabandistas e guardas fiscais acabavam por fazer parte dessa singular paisagem raiana onde, de certo modo, uns justificavam a existência dos outros. Hoje, nos momentos de sossego, sento-me frequentemente no ponto mais alto da aldeia a contemplar a paisagem da qual tantas memórias guardo. Ali permaneço longos minutos, por vezes horas a recordar pessoas, histórias e episódios que o tempo levou consigo.
A nostalgia visita-me frequentemente, mas também me ajuda a perceber o valor daquilo que vivi neste chão que continuo a considerar sagrado.
Os alojamentos locais trouxeram novos rostos e uma dinâmica diferente. Talvez não substituam a vida de antigamente, mas mostram que a aldeia continua a despertar interesse e carinho em quem a visita.
O tempo avança, trás e leva pessoas, hábitos e costumes, altera sons, rotinas e vivências. É a sua natureza. O que permanece são as casas recuperadas, as ruas que resistem ao passar dos anos e, sobretudo, a ligação afetiva daqueles que, como eu, nunca deixaram de amar este lugar.
E por cá vou ficando enquanto Deus quiser, agarrado às minhas memórias, mas também atento aos sinais de vida que persistem, porque um lugar não é feito apenas do número dos seus habitantes, é feito também das histórias que guarda, das raízes que sustenta e do amor que continua a despertar em quem lhe pertence.
Enquanto cá estiver, este amor persistirá, porque até quando o silêncio parece ocupar todos os espaços, gosto de acreditar que ele não é apenas ausência. É também a voz discreta da memória, lembrando-me que houve aqui uma comunidade feliz e cuja alma continua presente para quem a sabe escutar.
Texto e foto
