A minha cozinha fumeiro não é apenas uma divisão do quintal. É um pedaço vivo da minha história, da história dos meus pais e avós, da própria alma do Alentejo onde nasci e cresci. Sempre que entro nela, sinto que atravesso uma porta que me leva a tempos em que a vida era dura, simples e profundamente humana.
No meu Alto Alentejo, mesmo as casas pobres faziam a matança. Engordava-se o porco com os sobrantes das hortas e com as bolotas que nós, miúdos, íamos apanhar pelos caminhos. Era o porco que alimentava a família o ano inteiro, e por isso todas as casas tinham uma divisão ao lado da habitação para curar os enchidos: paios, morcelas, farinheiras, chouriços. Essa divisão chamava-se cozinha fumeiro. E era ali, no fumo lento e constante, que se guardava o sustento da casa.
As donas de casa, práticas e sábias, aproveitavam essa divisão para cozinharem durante todo o ano. Assim mantinham arrumada e limpa a cozinha principal, que em noventa por cento das casas era também a sala de visitas. O resto das divisões eram quartos para os ranchos de filhos que cada família tinha. A cozinha fumeiro era, portanto, o coração laborioso da casa: onde se cozinhava, onde se curava, onde se conversava, onde se vivia.
A minha cozinha fumeiro nasceu de um pedido do meu pai, o ti António Coelho. Quando remodelámos a Toca dos Coelhos, o quintal ficou cheio de sobras: telhas mouriscas, barrotes, tábuas, restos da casa antiga. Um dia, ele pôs-me a mão no ombro com aquela voz doce de quem pede rebuçados e disse: “Ó Zé… faz-me uma cozinha no quintal com chaminé como a que tínhamos na nossa casa.”
E eu fiz. Fiz com amor, com respeito, com a cumplicidade que sempre nos uniu. Fiz para lhe dar um lugar onde pudesse sentar-se no seu banquinho de madeira, atiçar o lume, aquecer-se e fumar o seu cigarrito como fazia na casa antiga.
Hoje, essa cozinha é também um pequeno altar de memórias. À esquerda da estanheira está a candeia de azeite da minha avó Amélia, que ela usou toda a vida na pequena sócha onde cozinhava. À direita, o candeeiro a petróleo que iluminou os serões da avó Amélia e do avô Zé Lourenço, luz sob a qual fiz os meus trabalhos da escola e li muitos dos livros que me formaram.
As minhas netas olham para essa luz com reverência quando a invernia corta a eletricidade, e eu lhes digo: “Olhem, filhas… o avô estudava à luz desse candeeiro.”
A estanheira, herdada da minha sogra, guarda os pratos de barro de São Pedro do Corval, pintados à mão, que comprei quando fui dar formação a Reguengos de Monsaraz. Cada peça tem uma história, uma origem, uma mão que a moldou. A arca de castanho, os alguidares da matança e as tábuas de tender o pão antes de o meter ao forno, eram da minha mãe.
Os dois banquinhos rústicos de madeira eram onde se sentavam ao lume o meu pai e o pai dele, o avô Faustino Coelho.
E assim, esta cozinha fumeiro é mais do que uma divisão. É a casa dentro da casa. É o lugar onde o passado continua aceso. É o sítio onde a luz antiga ainda vive, e onde eu, sempre que lá entro, sinto que volto a ser filho, neto, menino.
José Coelho
